Nilton Fukuda / Estadão
Nilton Fukuda / Estadão

Elza Soares lança seu primeiro álbum de inéditas desafiada por um novo conceito

'A Mulher do Fim do Mundo', com produção de Guilherme Kastrup, mostra a cantora no universo experimental dos músicos de SP

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2015 | 07h00

Elza é a Maria da Vila Matilde. Sem dignidade a perder, ameaça chamar a polícia se o marido que a espanca bater à porta de novo. E se insistir em entrar, coloca água no fogo até levantar bolha, arremessa no infeliz e solta o cachorro para ele fazer o resto do serviço. Elza é a mulher do fim do mundo, que chora samba na ponta dos pés e deixa a voz e a pele preta na avenida. Que faz da apoteose sua casa e sua solidão e que, ao fim de um carnaval sem confetes, se joga do terceiro andar para se livrar do resto dessa vida.

Elza Soares não sorri. Ela está sentada em uma poltrona na sala de ensaios do Estúdio Nimbus, na Lapa, em São Paulo. Quando termina uma sessão, recebe o Estado cordialmente mas sem personagens. Seu novo disco, A Mulher do Fim do Mundo, é uma corda esticada sobre um precipício por onde caminha tensa e decidida. Aos declarados 78 anos de idade, com a dor das costas operadas limitando seus passos e o desespero da recente perda de um filho ainda tomando o peito, Elza, mais do que cantar, precisa do grito. E ele veio salvá-la assim que o baterista e produtor Guilherme Kastrup a convidou para o trabalho.

A Mulher do Fim do Mundo é feito sobre quase sambas e quase canções impedidos de serem inteiros pela interferência de um pensamento rock and roll que deixa a alegria e a tristeza dos sambas e das canções de molho no ácido. Guitarras distorcidas com frases em vez de solos, baterias secas, barulhinhos e vazios vão tirando o chão de Elza em um comportamento semelhante ao que o disco 'Recanto' fez com Gal Costa. Com mais sugestões do que levadas, sua voz, acostumada ao taco das gafieiras, flutua sem nem sempre deixar claro onde vai pousar. “Eu sabia que seria um som diferente, moderno. Não tem samba nem canção. É muito mais difícil cantar assim”, diz Elza. “Você não relaxa. São músicas tensas mas perfeitas para o meu momento. Este disco é uma salvação, eu precisava disso.”

Elza está diante do primeiro álbum de músicas inéditas em mais de sessenta anos de carreira. As letras foram escritas todas para ela por músicos de personalidades desafiadoras, formadores de um bloco colaborativo que tem sido apontado como uma espécie de nova vanguarda paulistana. Douglas Germano mandou a indomável 'Maria da Vila Matilde'; Romulo Fróes, dentre outras, fez com Alice Coutinho 'A Mulher do Fim do Mundo'; Rodrigo Campos enviou 'Firmeza?!' e 'O Canal'; Kiko Dinucci, sozinho, fez 'Pra Fuder', e, com Clima, colaborou com 'Luz Vermelha'; e Marcelo Cabral e Clima mandaram 'Solto'. Todas as músicas estarão disponíveis para serem ouvidas em streaming a partir desta quinta-feira (1) no site da Natura.

Assim que Kastrup procurou Elza para saber sobre o que ela gostaria de falar, a cantora respondeu “sexo e negritude”. De sexo, falou mais na nervosa 'Pra Fuder', rompendo uma quase virgindade na música brasileira que ainda tem medo do palavrão. Um afrossamba punk com metais do grupo Bexiga 70, cheia e vigorosa. E na história do travesti 'Benedita', de Celso Sim, Pepê Mata Machado, Joana Barossi e Fernanda Diamant, que leva o cartucho na teta, abre uma navalha na boca, tem dupla caceta e é tera chefona. “Medo de palavrão, eu? Palavrão a gente ouve a toda hora. Palavrão é falta de emprego. Quer mais palavrão do que esse?”, fala Elza. Kastrup diz o seguinte: “É um disco libertário, contra essa caretice.”

A negritude não é um tema tão explícito, mas ela pensa em firmá-lo mais nos shows de lançamento de sábado (3) e domingo (4), no Auditório Ibirapuera, com ingressos esgotados. Elza quer falar sobre algo pelo qual tem sentido um desconforto maior nos últimos tempos, um recrudescimento do preconceito racial. “Eu falo muito da homofobia, do preconceito contra a mulher, mas sinto que não estamos tendo mais nenhuma referência para os ‘blacks’ que estão nascendo agora. Esconderam os negros, não há mais nada representando a negritude. O negro não sabe quem é. Fiquei muito assustada ao saber que uma cantora nova estava esses dias cantando em São Paulo quando alguém jogou um ovo e a chamou de negra maldita.”

O fluxo em mão dupla é o que o faz o álbum único na carreira de Elza. De lá para cá chega um conceito de demolição sonora com narrativa crônica sobre o qual a cantora jamais havia se acomodado. E olha que ela canta e experimenta desde que o samba era samba mesmo, antes de existir a própria bossa nova. De cá para lá, marcha uma voz que já não é mais só a voz, mas uma mulher inteira, como um trator terraplanando os traços rabiscados pelos paulistas. Se ela precisava deles no momento de desafiar a si mesmo, eles também falam mais alto quando têm uma voz do tamanho de Elza.

A liberdade de Kastrup e seus músicos, que dá a dignidade a Elza, existe em um contexto artístico e em outro maior, o econômico. A empresa de cosméticos Natura, que patrocina o álbum e os shows que saem dele, completou dez anos colocando discos de excelência na praça. Só este ano foram Emicida, Tulipa Ruiz, BNegão, Chico Cesar, Filipe Catto e Rodrigo Campos. Emicida gravou parte de seu projeto na África. Uma festa promovida à base de leis de incentivos fiscais que garantem as três fases do processo: liberdade de criação, gravação e circulação sem nenhum interesse comercial. O negócio nunca foi, até aqui, venda em lojas.

A questão é que o País está em crise e, logo, tudo fica ameaçado. Como os grandes movimentos artísticos que só existiram com o dinheiro das gravadoras, a boa saúde da música nova feita em São Paulo, que garante visibilidade maior que os surtos segmentados e muitas vezes invisíveis de internet, depende das transfusões de sangue feitas por empresas privadas como a Natura, em um modelo criado há dez anos. Sem nenhuma intenção em gorar, sempre é bom ter um plano B.

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