Elton John teve uma fase política na carreira

Antes das roupas extravagantes, ele cantou o genocídio indígena, a repressão e a bestialidade da guerra

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo,

15 de janeiro de 2009 | 16h38

Sir Elton Hercules John mal tinha acabado de renegar o nome Reginald Kenneth Dwight quando encontrou seu parceiro mais constante de carreira, o letrista Bernie Taupin, três anos mais jovem. Foi em 1967. Elton John tinha 20 anos e Bernard John - Bernie, para os amigos - mal acabara de completar 17. Respondendo a um anúncio de Elton, que buscava um parceiro letrista, Bernie chegou com algumas ideias na cabeça e uma ou duas doses além do habitual (ele começou a beber muito antes da idade legal). Desde os 15 estava fora da escola, jogando sinuca nos bares ou errando pelas estradas com amigos vadios. Era, enfim, o protótipo do desgarrado, que cansou de cair de joelhos na igreja de Market Rasen, Lincolnshire, clamando perdão por seu comportamento nada exemplar (Bernie foi coroinha da Holy Rood Catholic Church, onde se casou com a ex-mulher Maxine Fiebelman).  Veja também:Ouça canções e leia letras de músicas de Elton John  Após 2 dias secos, chuva causa estragos na arena de Elton John Pode parecer estranho falar tanto de Bernie Taupin quando Elton John está na cidade fazendo um show, mas foram as lembranças da infância e adolescência do letrista que deram forma às primeiras - e mais densas - canções do músico inglês. Pegue, por exemplo, quatro dessas canções: Indian Sunset, Sixty Years On, Talking Old Soldiers e Ticking. Todas falam ou da infância ou do imaginário infantil de Taupin, mas, não fosse a sensibilidade melódica de Elton, seriam apenas poemas marcados pela influência da literatura beat ou francamente inspirados na produção poético-religiosa de Gerard Manley Hopkins. Os dois produziram juntos - acredite - música séria, antes de Elton John virar ícone pop (nunca esquecendo que ele foi garoto prodígio da Royal Academy of Music). Infelizmente, é a parte menos conhecida de sua história. Antes de vestir aquelas roupas extravagantes e botas de sete léguas, Elton John cantou o genocídio indígena (em Indian Sunset, 1971, faixa do disco Madman Across the Water), a solidão de velhice (Sixty Years On, 1970, do disco Elton John, reproduzida ao lado), a bestialidade da guerra contada por um soldado morto (Talking Old Soldiers, 1971, do disco Tumbleweed Connection) e a violência provocada pela repressão (Ticking, 1974, do disco Caribou).  Ticking é a antevisão de um fenômeno urbano que se espalhou feito uma praga, o do crime sem explicação aparente praticado por reprimidos. Trata de um garoto "extremamente calmo", de ficha escolar irretocável, que mata um garçom negro num bar chamado A Mula Manca, em Queens. O "caucasiano" intranquilo, cercado pela polícia, joga a arma ao chão, sai do bar de mãos para cima e "dança feito uma marionete nas mãos da lei", que o enche de chumbo sem piedade. O mesmo destino do índio iroqui massacrado pela cavalaria na comovente Indian Sunset, fruto da fixação de Taupin na sangrenta história do Oeste americano. Pena que Elton John tenha trocado a vocação trágica pela melancólica roupa de palhaço. SERVIÇO: Elton John. Anhembi. R$ 250 (Premium esgotada). 20h. Venda bilheterias do Anhembi, portões 30 e 31, das 9h às 18h (nesta quinta-feira) e das 9h às 20h (sexta)

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