Ellen Alien, ícone da música eletrônica alemã, no D-Edge

Sem colocar a música eletrônica no âmbito apenas do entretenimento, a DJ e produtora berlinense Ellen Alien é considerada uma das poucas mulheres com destaque no gênero. Prolífica, ela produz, tem uma marca de roupas, e comanda o selo bpitch control. Apesar de ter destaque na cena electro - estilo que tem sido o hype das pistas, ela aposta no velho techno em suas produções. Já tocou saxofone, estudou moda, arte, caiu na noite e acompanhou a evolução da e-music no final dos anos 80. Nesta terça, 13, Ellen toca no clube D-Edge, em São Paulo, depois de passar por Florianópolis e Rio de Janeiro. Com álbuns que são uma verdadeira homenagem a Berlim, como "berlinette" e "stadtkind", Ellen traça um perfil bem interessante da cidade. Em entrevista ao Estadão.com, por telefone, ela é polêmica ao comentar o desenvolvimento da e-music berlinense: acredita que o techno teve por base o princípio ?dane-se a política? e, por isso, os clubes foram uma alternativa hedonista de movimento social. Você participou do Nokia Trends em 2005 em São Paulo. Você vê alguma diferença de tocar em festivais no Brasil e na Europa, onde a música eletrônica é mais forte? Tocar no Brasil sempre tem um clima mais emocional. É muito fácil conversar com as pessoas. Elas são muito mais abertas a ritmos que não são necessariamente a base cultural daqui. Mas há diferenças. No Brasil, as raízes musicais são múltiplas e as pessoas reagem de uma outra maneira. Não é tão direto como na Alemanha. É tudo mais fluido. Em seu site, você destacou o movimento londrino de acidhouse, estilo que foi o cerne da cena rave no final dos anos 80, como uma de suas influências. Como foi esse cenário e como estava Berlim nessa época? Londres sempre foi muito ligada ao hip hop e ao black. O acidhouse surgiu como uma confluência da música eletrônica com essa variabilidade de ritmos. Já Berlim, tinha muito mais a ver com o que estava rolando de underground nos Estados Unidos, com o techno de Detroit. Em Londres, o pop não era novo. Em Berlim, também pela situação política e pela divisão da cidade, ritmos mais dançantes eram novidade. O povo alemão é muito minimalista com sons e muito racional para música. Nisso, o techno se encaixou muito bem. A queda do muro de Berlim e o novo sistema político tiveram alguma influência na produção musical da cidade? Quando o muro caiu, a juventude não acreditava mais em movimentos políticos. Era tudo muito novo. Quando há mudanças sociais, o olhar sobre a cultura também muda. Isso em qualquer país. Em Berlim, começaram a surgir festas em galpões de indústrias. O sentimento era de: ?Dane-se a política. Todos estão juntos. O que foi tudo aquilo. Vamos nos divertir.? A intenção era fazer tudo de um modo diferente, talvez de um jeito mais individualista, sem tanta seriedade. E por isso a música começou a crescer tão rapidamente. Por isso a música eletrônica é tão forte em Berlim? Se você vai à Itália, tudo é tão bonito. A História é valorizada. Você anda pelas ruas e o sentimento é que se está em um museu urbano. Para nós é muito diferente. Na Alemanha, a História foi muito dura. Não há nada de bonito. A música era uma maneira de fazer tudo diferente. Clubes em grandes metrópoles estão sempre cheios por que, por mais que se diga que é diferente, há um sentimento de fuga da verdade. Claro que para quem está lendo isso pode parecer que todo mundo usa drogas. São Paulo é uma cidade que só cresce, que tem uma grande influência do capitalismo americano. Muita gente, sem saber, está fugindo dessa confusão. Querem encontrar pessoas em outro contexto, com corpos, com música. Eles querem sentir. Foi assim com você? Para mim, no começo tudo foi muito como uma diversão. Eu ia para festas como louca, com drogas, sem muita intenção. Mas acabei falando de outras coisas, tendo idéias, e fazendo disso minha vida, minha cultura musical. Depois, comecei a fazer o selo, fiz programa de rádio, passei a discotecar, tenho uma marca de roupas. Festa também é um meio de comunicação. As pessoas trocam idéias, emoções, tudo...É uma troca. Não são somente drogas. Também tem um movimento social e político, no sentindo de que há pessoas produzindo, ditando novos estilos, tendo idéias, inovando e criando novas leis de sociabilidade. Talvez eles não escrevam sobre isso, mas há muita coisa acontecendo. O selo bpitch control tem com uma proposta mais intimista, de uma música eletrônica mais conceitual. É também um modo de mostrar à sociedade que música eletrônica não é somente para dançar em uma pista? Que há outro lado? Eu não vejo dessa maneira. Que seja somente para dançar. Eu encaro a dança como parte do processo de comunicação com a música. É uma maneira de sentir fortemente a música, sua melodia, harmonia e ritmo. Você pode sentir o seu corpo, aquele ?haaaaaaaaaaaaa?. Emoções vêm à tona. Claro, posso fazer sons que evoquem sentimentos mais pessoais. Penso também naquela pessoa que vai colocar o CD em casa, concentrar-se em outras coisas. Nessa situação, é chato ouvir somente dance music. Sons mais intimistas também são uma maneira de chegar mais próximo do produtor, de entender. Mas não há uma valoração nisso. Você é tida como pertencente à cena de electro na Alemanha. É assim que se sente? Eu diria que sou uma DJ de techno basicamente, embora a mídia me classifique como sendo de electro. Eu entendo. Se isso aproxima mais as pessoas, ou gera um entendimento. Não me importo. A classificação não vai mudar a minha música. Se eles precisam de algo para escrever ou puxar pelo ?hype?, tudo bem. O que podemos esperar para o D-Edge. Vai mudar do que já tocou nas outras cidades? Não. Dificilmente mudo, mas também nunca levo o meu set pronto. Sinto o lugar. Às vezes, tento dar uma atmosfera mais positiva ou mais dark. Ellen Alien - D-Edge - DJs: Renato Ratier/Ellen Allien/Pil Marques. Quando: Terça-feira - 13/03 - 23h. Entrada: R$ 45 (CC, CD, CQ, $). Endereço: Al. Olga, 170 - Barra Funda. Informações: 3666 9022 ou pelo site ww.d-edge.com.br. Hosts: Luma Assis e JJ Davies. Estacionamento: R$ 10,00

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