Reuters
Reuters

Ella Fitzgerald: 20 anos sem a 'Primeira Dama da Canção'

Há duas décadas, debilitada pela diabetes, cantora norte-americana saía de cena deixando um vocal impressionante na História

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2016 | 18h23

Ella Fitzgerald saiu de cena há exatos 20 anos. Estava com 79 anos, debilitada por uma diabetes agressiva e com as duas pernas amputada. Distante da mulher que o mundo chamou um dia de "a Primeira Dama da Canção", Ella seria logo redescoberta, justiçada pelo tempo que faria o serviço: ainda não houve cantora maior.

Algumas marcas que chegam quando seu nome é citado:

1. Extensão de voz.

Os estudiosos afirmam que algo de incomum acontecia quando Ella Fitzgerald se jogava em uma canção. Seu arco vocal atingia impressionantes três oitavas de forma natural, sem as forçações que a escola de canto das igrejas protestantes dos Estados Unidos imprimiria em outras cantoras negras.

2. Improvisos vocais

Ella já afirmou como foi que começou a fazer o que passou a ser chamado de scat: "Eu só queria cantar algo para tentar ser um trompete". O New York Times escreveu que Ella acabaria engolindo o próprio Louis Armstrong quando resolvia improvisar como se fosse um instrumento de sopro. Sua marca acabaria sendo reproduzida por vozes do mundo todo, que reconhecem a origem do scat em Ella Fitzgerald 

3. Entrega

A afinação, fundamento que muitas cantoras consagradas não valorizam, era perseguida por Ella com obstinação. Sem estudo formal, ela sabia que deveria ter seu canto na linha. E assim fazia, ainda que de forma intuitiva, seus gols mesmo sobre harmonias complicadas do jazz. A afinação era, portanto, sua obrigação, mas a entrega era mais especial. Ao mesmo tempo em que fazia o tempo parar para que se tornasse por instantes o centro das atenções, Ella não possuía um comportamento vocal de quem precisava ter a audiência consigo. Sua voz saía com naturalidade, sem empostações e volume além do que a canção pedia. Uma aula de confiança na própria entrega.

Felizmente, Ella Fitzgerald foi reconhecida em vida. Venceu impressionantes 14 prêmios Grammy em seus 59 anos de atividades e recebeu medalhas de dois presidentes norte-americanos: Ronald Reagan e George W. Bush. Seu grande amor foi o baixista Ray Brown, com quem se casou em 1947, e a quem foi apresentada durante os trabalhos que fez no conjunto do trompetista Dizzy Gillespie. Seu material de arquivo e objetos pessoais foram armazenados em dois lugares nos Estados Unidos: o Museu Nacional de História Americana, o Smithsonian, e a Biblioteca do Congresso. Sua frase, ao receber um dos últimos prêmios de sua vida, foi outra lição à posteridade: "Não quero dizer a coisa errada, o que sempre acabo fazendo. Acho que me saio melhor quando canto. Boa noite".

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.