Elis, a voz de uma época

Voz privilegiada de um tempoculturalmente privilegiado, ainda que politicamente difícil,Elis Regina é da geração das baianas Maria Bethânia e Gal Costa,da carioca Nana Caymmi e da capixaba Nara Leão. O primeiromomento de Bethânia foi dedicado à música de protesto, herdandode Nara o palco do show Opinião; Gal Costa identificou-se depronto com a bossa nova, na vertente joão-gilbertiana; Nanasempre foi a cantora dos corações partidos, e sempre uma cantoracarioca. Talvez por vir de uma terra cuja tradição musical (muitoforte) não transcende as fronteiras, a gaúcha Elis Regina nãodelimitou território, não levantou bandeiras que não fossem - noseu parecer - qualitativas. A bossa, a canção de amor, a músicade protesto foram como suas águas naturais de navegação, comomais tarde o seriam a black music de Tim Maia, o boleroescrachado de João Bosco e Aldir Blanc, o pop de GuilhermeArantes e Rita Lee. Mais importante do que isso: o surgimento de Elis foiuma ruptura com tudo o que a bossa nova e o imediato momentopós-bossa (o da música de protesto) haviam argamassado. Sua voz,sua figura, eram o contrário da estética reinante - não eraagressiva como Bethânia, passional como Nana, intimista comoNara, tímida como Gal. Era herdeira - a voz, a cantora - do quese considerava ultrapassado: da voz grande de Ângela Maria, dosgestos largos das irmãs Batista, do samba rasgado tratado com asofisticação de Elisete. Atriz - Era tímida, sim, era agressiva, sim - mas erauma atriz e só deixava escapar para o público aquilo querendesse dividendos quando somado à interpretação vocal; eraatriz feitinha para o veículo novo que se firmava, a televisão,com seus closes extremos - Elis olhava para a câmera, dialogavacom ela, cantava para ela. E, por ela, todo mundo. De sua timidez, é notável lembrar a história de quandofoi apresentada ao desconhecido e tímido Chico Buarque. Os doissem jeito, ele com o violão; ela ouviu, não entendeu as músicas,não as sentiu. Não conseguiram conversar e chegar a um acordo.Chico foi levado até a casa de Nara, que era tímida mais nafigura do que na vida - e foi Nara quem lançou Chico. De sua agressividade, outra história: casada com CésarCamargo Mariano, ouviu uma fita que continha o samba FolhasSecas, de Nelson Cavaquinho. Nelson dera o samba para BethCarvalho gravar. O arranjador era César. Elis não teve muitoescrúpulo em pegar para si a obra-prima. Cantora solar, Elis estimulou a carreira de Edu Lobo,Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ivan Lins, JoãoBosco e Aldir Blanc, Renato Teixeira e de praticamente todos osbons autores seus contemporâneos. O predomínio do assim chamadorock-Brasil começou mais ou menos quando Elis morreu. Sua mortetem a força simbólica - talvez ela não quisesse assim - do fimde um tempo.

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