Divulgação
Divulgação

Elina Duni, voz que vem da Albânia

A arrebatadora cantora que mistura jazz com regionalismos do leste europeu

João Marcos Coelho, Especial para O Estado,

22 de dezembro de 2012 | 07h00

Matane malit, o título do recém-lançado CD da cantora albanesa Elina Duni, quer dizer além da montanha. Elina está com 30 anos; saiu de seu país aos 10. A Albânia, como se sabe, foi um dos países mais fechados do mundo, praticando um comunismo mais comunista do que Moscou poderia imaginar. Rompeu com a União soviética em 1961, aliando-se ao PC chinês. Somente nos anos 90, depois que todo o bloco soviético desmoronou, o país adotou a república parlamentarista como forma de governo. A capital, Tirana, tem 250.000 habitantes, menos do que a Zona Leste paulistana. A população total não ultrapassa os 3,2 milhões de pessoas; e seu território não é maior do que o Estado de Alagoas. O isolamento político e econômico fez da Albânia um dos mais pobres países europeus. Localiza-se no sudeste da Europa e limita-se com a Grécia e Macedônia.

Elina faz, neste CD surpreendente, uma releitura das músicas e canções de sua terra natal a partir de sua experiência com a prática do jazz e das músicas improvisadas. Desse modo, potencializa a qualidade das canções folclóricas da região dos Bálcãs. "Quero salvá-las do esquecimento", diz Elina no encarte, "e ao mesmo tempo reinventá-las".

O povo afastou-se de suas raízes folclóricas porque o governo se apropriou deste acervo e o transformou em peças de propaganda do regime por décadas. Elina escolheu doze canções, entre as de tradição ancestral e as compostas pelos exilados albaneses espalhados por outros países. Além dos temas comuns, como as paixões e os amantes infelizes, elas falam de heróis, trabalhadores, pastores vivendo na zona rural, exilados, desesperados e resistentes.

Elina e o trio que a acompanha mergulham no interior dos versos com uma força emocional rara. "Concentramo-nos na energia que esta poesia gera, tentando traduzir sua essência através de nossa música". Seus parceiros são o pianista suíço Colin Vallon, que soa de fato como uma segunda voz que conversa com a de Elina. O contrabaixista Patrice Moret se entende por telepatia com o baterista Norbert Pfamatter - quanta sutileza na percussão e na escolha de cada nota. Há uma hipnose entranhada em cada som emitido. Elina gosta disso: "Jamais quis ser uma cantora acompanhada por um trio. Desde o começo, dei espaço aos músicos. Sou só mais uma instrumentista entre eles".

Comece a ouvir o CD pela segunda faixa Kjane Trima - pronuncia-se Kiani Trima. É uma canção popular do século 19 exaltando os feitos do herói nacional Marko Boçari, que lutou contra o Império Otomano (a Albânia foi dominada pelos turcos por 400 anos). Ainda hoje é muito conhecida dos albaneses do nordeste da Grécia e do sudeste da Itália. Os versos falam mais ou menos o seguinte: chorem, bravos, eu fui até seu lar e ele não estava lá. Sinto-me como um pássaro sem casa. Ere Pranverore, algo como a brisa da primavera, canção interpretada pelo cantor albanês Vaçe Zela no Festival da Canção de Tirana, de 1962, foi considerada subversiva por causa da letra, que canta as doçuras da primavera, mas acena que ela não chegou e um dia chegará. Eufemismo para liberdade. Daí a censura do regime. Ra Kambana, ou os sinos tocam, é canção popular entre os alvanitas, albaneses que vivem no noroeste da Grécia.

A adrenalina começa a subir quando se ouve Kristal, melodia composta pela própria Elina Duni sobre letra do grande escritor albanês Ismail Kadaré. Em tradução literal, Kadaré escreve: "faz muito tempo que nos vimos/ sinto que estou te esquecendo/ sua memória morre em mim dia-a-dia". O trio que a acompanha é de uma parcimônia a toda prova: o piano escolhe nota a nota, acorde a acorde, com muita ressonância; o contrabaixo marca o tempo, discretíssimo; e a bateria brinca com timbres, explora-os até o limite sem criar crescendos - a atmosfera é quase sempre hipnótica.

Elina e seu trio conquistam de vez os ouvidos de todo brasileiro que viveu por aqui a ditadura quando interpretam Mine Peza, canção escrita em Tirana entre 1938 e 1940, período em que os fascistas italianos ocuparam a Albânia. É inspirada na história verídica de uma mulher chamada Mine Peza. Espante-se com a letra, em tradução livre, e sua incrível semelhança com outra letra tão conhecida de nós todos:

Onde está minha filha, onde está o meu filho?

Eles estão trancados na prisão, longe, na Itália.

Você tirou toda a minha esperança

eles não cometeram nenhum crime

mas apenas lutaram pela liberdade de sua pátria.

Vamos acabar com esta ocupação cruel,

chora a mãe.

Mas a arma na mão do soldado traiçoeiro atira e mata a mãe.

É um réquiem, tanto quanto Angélica, a canção que Chico Buarque fez para Zuzu Angel, morta nos anos 70 em circunstâncias não esclarecidas quando procurava o corpo do filho morto pela ditadura militar. Relembrem parte da letra de Chico:

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse estribilho?

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse lamento?

Só queria lembrar o tormento

Que fez meu filho suspirar

Quem é essa mulher

Que canta sempre o mesmo

arranjo?

Só queria agasalhar meu anjo

E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher

Que canta como dobra um sino?

Queria cantar por meu menino

Que ele não pode mais cantar

É de arrepiar.

Tudo o que sabemos sobre:
Elina Duni

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.