Eliane Elias reencontra Bill Evans em 'Something For You'

Cantora e pianista marca retorno ao selo Blue Note e ao jazz depois de fase mais centrada na canção pop

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

25 de julho de 2008 | 16h44

Tributos mal-intencionados existem aos montes. Agora, quando se faz com fundamento, o grande desafio que um músico enfrenta ao reinterpretar o legado de um semelhante é evitar a imitação, é imprimir seu estilo sem descaracterizar o homenageado. Ainda mais quando se trata de um inovador como o pianista Bill Evans (1929-1980), a quem Eliane Elias dedica o requintado CD Something For You (EMI). Veja também:Ouça trecho de 'Here is Something for You'   Com esse projeto, ela marca seu retorno ao selo Blue Note e ao jazz depois de uma fase mais centrada na canção pop. Foi como voltar para casa. Além disso, e não menos importante, traz à luz duas composições inéditas de Evans: Here Is Something To You, que tem duas versões no CD, e Evanesque, ambas com títulos e letras dela. Estes são dois dos temas encontrados numa fita cassete que o próprio Evans deixou com o baixista Marc Johnson, com quem Eliane trabalha há mais de 20 anos.  Johnson integrou o último trio do pianista, aquela formação que ele considerava a melhor de todas, e reencontrou a fita depois de cerca de três décadas esquecida. "Ouvir essas últimas coisas que Evans produziu foi muito emocionante", conta a pianista, compositora e cantora paulistana, que vive em Nova York desde 1981. Registradas na fita estão sessões em que Evans trabalhava em novas composições e arranjos. Na última faixa do CD, Eliane usou a própria gravação dele para Here Is Something To You, inacabada. "Quis tocar da maneira mais próxima dele. E a emoção que senti ao transcrever essa música que ninguém conhecia foi incrível. Lembrei da satisfação profunda que sentia ao transcrever as músicas quando era jovem para tocar junto. Fiquei surpresa ao sentir de novo essa emoção, quando terminei a transcrição e completei essa música, que foi a última composição dele." Além das raridades encontradas, Eliane revisitou o repertório clássico de Evans, incluindo temas de sua autoria, como a imprescindível Waltz for Debby, Five, Blue in Green, como de Miles Davis (Solar), Gershwin (But Not For Me), Victor Young (My Foolish Heart) e outros, que se tornaram standards e aos quais deu seu toque de Midas. Minha (Francis Hime/Ruy Guerra), a única cantada em português no disco, é uma das duas músicas brasileiras gravadas por Evans. A outra é The Dauphin. After All é uma inédita de Eliane, que afina com a sofisticação de seu estilo. Uma série de fatores contribuiu para que o CD, em que Eliane se volta mais para o piano e menos para os vocais, fosse realizado com essa qualidade de resultado. A maturidade artística permitiu que ela, bem estabelecida como instrumentista, autora e intérprete, assumisse o compromisso de reinterpretar um mito do piano sem correr risco. "Bill Evans está ali, mas quem ouve me reconhece também. Nesse disco eu me senti muito à vontade para fazer isso. Poderia fazer uns três volumes, até mais, de tanto material que tinha. Mas tentei mostrar uma perspectiva da carreira dele, desde bem do começo até o final." Entre seus méritos, por exemplo, há a fusão de But Beautiful e Here’s That Rainy Day, que a princípio pareciam não combinar. Mas ela descobriu que harmonicamente ambas davam liga. E por coincidência, são dos mesmos autores (J.Van Heusen e J.Barke), fato para o qual ela diz que não tinha atentado quando decidiu fazer a fusão. I Love My Wife, do álbum New Conversations, foi gravada com Evans tocando três pianos sobrepostos. Eliane readaptou o arranjo e o desenvolveu de forma a fazer os três pianos num só em primoroso momento. O disco todo, aliás, foi gravado nesse esquema, ao vivo em estúdio, com todos tocando juntos e sem sobreposição de camadas. Johnson, co-produtor do disco com Eliane, forma com ela e o baterista Joey Baron outro trio digno da grandeza de Evans. A interação dos três músicos é fundamental e notável no desenvolvimento do CD. "Acontecem coisas na hora da gravação que resultam da afinidade total entre nós. Esse momento vem apoiado por uma carreira, uma vida em música, e por uma conexão da minha alma com meu próprio instrumento. Daí a importância de estar tocando com músicos com quem você está há tantos anos juntos, para não desperdiçar esse momento da gravação." Não é à toa que os americanos, os europeus e os japoneses rasgaram elogios a ela (veja no site), não só pelo CD mas pelos shows que tem feito por lá. Além do tributo a Evans, Eliane também acaba de lançar um CD comemorativo dos 50 anos da bossa nova (por enquanto só na Europa). Agora só falta ela voltar ao Brasil com isso tudo para mostrar.

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