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'Elektra' ganha nova produção no Teatro Municipal de São Paulo

Ópera do compositor alemão Richard Strauss tem direção de Lívia Sabag

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

09 Outubro 2016 | 04h00

Uma “abominação”, um espetáculo de “perversão sexual deformada”, “manchado de sangue”. Não foram poucos os julgamentos como esses após a estreia, em janeiro de 1909, em Dresden, da ópera Elektra, de Richard Strauss. A recriação da tragédia grega soou avançada demais para o seu tempo? Talvez, como diz o crítico Tim Ashley, o problema pode ter sido o contrário: o compositor e seu libretista, Hugo von Hofmannsthal, estavam no fundo erguendo um espelho diante do início do século 20. Nem todo mundo gostou do reflexo. Mas Elektra sendo uma das mais importantes óperas do repertório – e ganha a partir deste domingo, 9, nova produção no Teatro Municipal de São Paulo, sob direção de Lívia Sabag.

Lívia foi responsável, em 2014, por uma celebrada produção de outra ópera de Strauss, Salomé, estreada em 1905, quatro anos antes da Elektra. As duas obras são características do modernismo de Strauss. Na primeira, ele fala da princesa que deseja o profeta João Batista e, ao ser rechaçada por ele, pede a sua cabeça, com a qual dança até a morte. Na segunda, Elektra alimenta o desejo de vingança contra sua mãe, responsável pela morte de Agamênon, seu pai. Mas a diretora não tentou estabelecer paralelos entre as duas produções. “Naturalmente, havia a questão sobre as semelhanças e diferenças entre as óperas. Ambas têm um ato apenas, personagens femininas protagonistas, o diálogo com a época, com a noção de inconsciente, de subjetividade. Mas há uma diferença fundamental. A morte de Salomé é uma libertação, uma afirmação. A de Elektra, é aprisionamento: após viver em função da vingança, nada mais resta, tudo perde o sentido”, explica.

Poucos definiram tão bem a transformação pela qual passou a Europa na virada do século 19 para o século 20 como Sigmund Freud. E é normal que Elektra costume ser lida à luz da psicanálise. A linha do tempo, no entanto, é outra. “Os artistas de alguma forma já antecipavam ideias que Freud vai desenvolver mais tarde. Não há registro de que Hugo von Hofmannsthal, autor da peça e do libreto, conhecesse as ideias dele em 1903, quando escreveu o texto, pelo contrário.” Em outras palavras, se Freud definiu seu tempo, também foi fruto dele – e o contexto que o inspirou também teve impacto no trabalho de autores como Strauss. “É uma sociedade cuja estrutura passa por uma crise, assim como se questiona também a própria figura masculina”, diz a diretora.

É um momento de convulsão. E dessa convulsão participa um mundo interior que daria origem ao expressionismo. “É interessante ver como o Hofmannsthal relê os textos originais gregos. As relações de sangue, presentes na Oresteia, por exemplo, são muito importantes, mas, se para os gregos Elektra fala essencialmente de justiça, para Hofmannsthal o foco está nas relações humanas na família. O modo como estão construídos os personagens propõe um diálogo familiar que Strauss aprofunda com a sua música. Por isso, foi justamente a ideia que é daí que nasce a tragédia. Buscamos, então, um ambiente doméstico, intimista, que pudesse de alguma forma mostrar a condução emocional da narrativa.”

O palco foi dividido em dois andares. No subsolo, vive Elektra (interpretada pelas sopranos Catherine Fostes e Eva Johansson). “Ela se cerca dos objetos do pai, opta por reviver diariamente sua morte”, diz Lívia. Já sua mãe, Clitemnestra (vivida por Natasha Petrinski e Susanne Resmark), no andar de cima, não consegue lidar com o acontecido, bloqueia essa memória. “Há também algumas projeções que evocam o cinema. Mostrei para o elenco uma cena de Sonata de Outono, de Bergman, em que a tentativa de diálogo entre mãe e filha se torna um pesadelo de falta de comunicação. Na tentativa de construir um diálogo, elas não conseguem abandonar as próprias certezas.” O elenco é composto ainda por Emily Magee e Melanie Diener (Crisótemis), Kin Begley e Jürgen Sacher (Egisto) e Albert Dohmen e Johmi Steinberg (Orestes), além de solistas do Coral Lírico Municipal.

ELEKTRA

Teatro Municipal de SP. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 3053-2090.

Dias 9, 12, 13, 15, 16, 18 e 20. 3ª a sáb., 20h; dom., 17h. R$ 50 a R$ 160

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Música Clássica Ópera Richard Strauss

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