'Ele me ressuscitou', diz Iggy Pop sobre David Bowie

'Ele me ressuscitou', diz Iggy Pop sobre David Bowie

Músico relembra a amizade com o camaleão do rock

Jon Pareles, The New York Times

14 Janeiro 2016 | 18h11

Iggy Pop, cuja carreira solo começou com dois álbuns produzidos por David Bowie, disse em uma entrevista esta semana que ainda não digeriu a morte de Bowie, aos 69 anos, no domingo.

“A amizade está ligada basicamente ao fato de que ele me salvou da aniquilação profissional, talvez pessoal”, disse Iggy, hoje com 68 anos. “Muitas pessoas eram curiosas a meu respeito, mas apenas ele teve algo verdadeiro em comum comigo e que realmente gostava do que eu fazia e apostou em mim, e tinha realmente intenção de me ajudar. Ele fez algo bom. Ele me ressuscitou”, concluiu.

Segundo Iggy, “Bowie foi mais benfeitor do que amigo, do modo que muitas pessoas consideram uma amizade. Ele se empenhou para me dar um bom futuro”. Eles perderam contato depois de 2002, quando Bowie pretendia assinar contrato com Pop para gravar para o seu novo selo e conflitos relacionados a cronogramas impediram-no de se apresentar no festival de Meltdown, em Londres, do qual Bowie era o curador.

 Iggy encontrou Bowie em 1971, um período de excessos em que “estávamos todos muito mal, mas ele pelo menos estava melhor”. Em 1976, Bowie convidou-o para acompanhá-lo na turnê de lançamento do seu álbum Station to Station.

“Ele era um artista muito disciplinado. Era uma época em que podia haver 700 pessoas em Albuquerque, 15.000 no Garden, 300 em Zurique, etc. Ele fazia um show espetacular toda noite. Não importava onde fosse”, lembrou Iggy.

Após a turnê, Bowie produziu o álbum solo de Iggy, em 1977, The Idiot, eles viajaram pela França e Alemanha e compuseram muitas músicas juntos, quando Bowie compunha a música e talvez dava o título e Pop completava com a melodia e a letra. “Ele resumiu minha personalidade, liricamente, nesse primeiro álbum”, disse Pop. E comparou Bowie ao personagem do Pigmalião de George Bernard Shaw e do musical My Fair Lady.

Iggy diz que às vezes era como ter o “Professor Higgins dizendo a você: ‘jovem por favor, você é da área de Detroit. Acho que você deve compor uma música sobre produção em massa’ (Ele o fez: Mass Production).

Nightclubbing, composição de Pop que faz parte do álbum The Idiot e reflete as excursões pelos clubes após um concerto na Europa junto com Bowie, foi gravada com um sintetizador barato e uma bateria eletrônica vetusta, únicos equipamentos disponíveis depois de a sessão de gravação ter terminado e os instrumentos empacotados. “Ele disse, ‘não posso incluir uma gravação como esta no álbum’. E eu respondi, ‘mas eu posso’”. Ele sorriu e entendeu que aquilo era um parque de diversão para mim. Sempre procurei incentivar seus piores impulsos nesse sentido”.

Quando Bowie mudou-se para Berlim, Iggy ocupou um quarto no apartamento dele “sobre uma loja de peças de carros". A canção título do álbum seguinte, Lust for Life, nasceu nesse apartamento.

Iggy Pop e David Bowie, sentados no chão, aguardavam o início do capítulo da série Starky & Hutch, exibido pelo canal das Forças Armadas. O canal começava o programa com um sinal de chamada que parecia uma batida Motown, e que foi a base para Lust for Life. “Ele compôs a sequência dos acordes num ukulele", disse Iggy, "e criou o título da música, Lust for Life".

Bowie “viu-me algumas vezes, quando desejava, como um Beat moderno, ou um personagem moderno de Dostoievski, ou um Van Gogh moderno. Mas ele sabia que no fundo eu era um caipira”.

"Bowie, pelo contrário, era uma figura internacional. Encontrei os Beatles, os Stones, este ou aquele ator ou atriz, enfim todas aquelas pessoas poderosas por meio dele. E observava. E ocasionalmente, pelo menos hoje, sou um pouco menos rústico quando tenho de tratar com essas pessoas.”

David Bowie fez questão de visitar os pais de Iggy em Detroit, que viviam em um trailer. “Ele foi visitar meus pais e os vizinhos ficaram tão assustados com o carro e os guarda-costas que chamaram a polícia. “Meu pai, um homem maravilhoso, disse a ele, ‘agradeço o que você está fazendo por meu filho’. Eu pensava, cale a boca, papai. Você faz com que eu pareça um sujeito brega”./ TEREZINHA MARTINO

 

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