Eldorado edita trilogia com histórias de cordel

O cearense Ednardo lançou mão de um título - O Romance do Pavão Mysteriozo (usando uma grafia de aparência arcaica) - e um mote dos mais conhecidos da cultura popular nordestina para compor a estranha, estranha e bela canção que, por fim, incluída na trilha sonora da novela Saramandaia, de 1976, o lançaria como estrela nacional.Outros autores, mais ligados - pela obra, pela dedicação estudiosa - estudaram o folhetim de cordel, atribuído a João Camelo de Melo Resende e a João Malquíades Ferreira da Silva. Entre eles, o quinteto formado por Ronaldo Brito, Fancisco Assis Lima, cearenses, e Antônio Madureira, Antônio Nóbrega e Éricson Lana, pernambucanos."Nós também não resistimos ao fascínio da história e arriscamos escrevê-la para o teatro, coisa que já deve ter sido feita por outros autores", escreveu, em 1985, Ronaldo Brito, na contracapa do elepê O Romance do Pavão Misterioso, com selo original da gravadora Continental, agora relançado, em CD, pela gravadora Eldorado.A música do elepê e do CD era a trilha sonora da adaptação que fizeram do cordel. As letras, o projeto e a pesquisa levavam assinatura dos dois cearenses; os três pernambucanos assinavam as letras. Foram aproveitados alguns temas da tradição oral - Botei Meu Barco n´Água e A Sereia são peças de reisado do Cariri; A Briga do Valente João com o Conde Poderoso é peça da banda cabaçal do Cariri, instrumental desenvolvido sobre o tema recorrente da briga do cachorro com a onça.Outros temas foram especialmente compostos para o espetáculo, respeitados os gêneros da região que nos deu a história e, em espírito armorialista - cabe lembrar que os Antônios Nóbrega e Madureira são fundadores do Quinteto Armorial braço musical do movimento criado por Ariano Suassuna com a intenção de criar uma música nacional culta baseada na tradição da cultura popular - lançando mão de formas medievais, que permanecem (não só formas, mas ainda temas) na tradição nordestina.O valente João é João Evangelista, perdidamente apaixonado pela condessa Creusa, a quem o pai prende numa torre; por amor, João Evangelista larga terra e família e vai em busca da amada. Observa o pavão a voar (Voa, Passarinho) e navega do Maranhão, ao Piauí, ao Cariri, chega à China, ao Japão, à Pérsia vai até Istambul e canta: ´Vim pra Turquia viajando pelo ar/ É oriente, é ocidente, é sol poente/ Daqui não saio, a Terra toda é meu lugar." O Romance do Pavão conta sua viagem e dá voz à prisioneira condessa.O Romance fez parte de uma trilogia das festas, que começou a ser editada em 1983. O primeiro título foi o Baile do Menino Deus, que tem como tema o Natal, com músicas de Antônio Madureira e letras de Ronaldo Brito e Francisco Assis; em 1987, dos mesmos autores, saiu Bandeira de São João, com canções da festa. "Mas não recobre apenas o São João que todos conhecemos; há o balão, as adivinhas, a bandeira, a fogueira, a quadrilha, o acorda-povo, mas o trabalho transcende o puramente regional", explica Ronaldo Brito. "Como é sabido, há toda uma simbologia que religa o São João às festas pagãs do fogo, compreendido como o Deus da Fertilidade; em nosso meio, ele coincide com a estação da colheita, quando a fartura do milho e de outros frutos da terra é vivida com generosidade."Há vários São João, diz. "O que dorme na noite de sua festa, sem poder vir à terra brincar, porque ela arderia em fogo conforme conta a lenda; o das águas do Jordão; o São João Xangô; o de que os índios aprenderam a gostar, brincando de pular fogueiras em noites de Jaci e dias de Coral; o que amadurece a boneca de milho em espiga; o que acorda o povo na madrugada para um batismo de música e alegria; o das flores e o do bacamarte" - e assim por diante. Esses dois discos, dois tesouros, foram originalmente lançados pela Eldorado e, como o Romance, estão disponíveis em CD.

Agencia Estado,

20 de fevereiro de 2001 | 17h45

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.