Elba Ramalho experimenta o rap em novo CD

A idéia, diz Elba, é mostrar uma pessoa que têm raízes, mas que está atenta às novidades do mundo

Pedro Henrique França, da Agência Estado

10 Outubro 2007 | 14h10

Que ela tem um ar místico todo mundo sabe. Nordestina do sertão de Paraíba, ela passou muito tempo dos últimos anos em sua casa em Trancoso, na Bahia, templo de ripongas que enaltecem a filosofia "paz e amor". Hoje, ela vive no Rio, em São Conrado, e é de sua casa, deitada na rede admirando a paisagem, que Elba Ramalho concede entrevista à Agência Estado sobre seu novo disco "Qual o assunto que mais lhe interessa?". A cantora remete no imaginário popular a forró e canções românticas, mas neste trabalho ela flerta com novidades. Elba quis "renovar o ânimo" e experimentou a guitarra de Frejat e o rap de Gabriel, o Pensador. "Queria fazer um trabalho onde pudesse como intérprete não ter que ficar repetindo fórmulas antigas. Buscava outras motivações, trazer uma sonoridade nova, e isso exigia algo mais arrojado", declara.   Convocou Lenine para produção, mas o pernambucano teve que abandonar o projeto por conta do Acústico. Ele até pediu para a cantora adiar a idéia, mas Elba não quis. "Foi um impacto muito grande, porque tive que rever tudo, buscar alguém que desse o mesmo tom arrojado que eu sabia que ele faria. Mas a bicicleta já estava na estrada e eu continuei pedalando", conta. Lenine então sugeriu Paul Ralphes, mas Elba não se sentiu confortável. Achava que ele, "com todo seu talento", não teria condições de mergulhar em um trabalho denominado Raízes e Antenas. Apagou o que estava sendo feito, "socorreu" a Lula Queiroga, que topou a empreitada, e recomeçou. Yuri e Tostão Queiroga complementaram o time de produção.   A idéia, diz Elba, foi mostrar uma pessoa que têm raízes, mas que está atenta às novidades do mundo. A expressão "raízes e antenas" surgiu de uma conversa com Lenine, quando ele ainda seria o produtor. Apesar de ser a essência do projeto acabou não sendo o título do CD, porque havia suspeitas de que o nome já tivesse sido utilizado. O conceito, no entanto, continuou o mesmo: "Fala de mim, de uma pessoa que tem pés fincados no Nordeste, mas que tem visão do mundo nas mãos. Não fico fechada dentro da minha própria cultura, gosto de outras coisas e me permito que elas venham até mim".   Com esta filosofia, Elba produziu um CD com composições que vagueiam pelo saudosismo, em Gaiola da Saudade (Jam da Silva e Maciel Salú), aborda o caos do trânsito (Rua da Passagem, de Lenine com Arnaldo Antunes), conclama os anjos (Ave Anjos Angeli, segundo ela, uma canção perdida nos discos antigos de Jorge Ben Jor). A cantora recicla também canções como As Forças da Natureza, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, consagrada na voz de Clara Nunes, Novena, de seu parceiro Geraldo Azevedo ("sugestão de Lenine") e Argila, de Carlinhos Brown, o baiano que ela diz ter sido uma das primeiras a gravá-lo.   Mas o disco é também questionador e convida à discussão. A faixa-título Tempos Quase Modernos (Qual o assunto que mais lhe interessa?), de Roberto Mendes e Capinam, adota um tom rap com a participação de Gabriel, o Pensador em versos que atiram por temas que vão desde fertilização in vitro, soja transgênica, crianças sem lares, entre tantos outros. "Queria investir num momento que fosse mais reflexivo", explica. "Essa música representa o que eu mais quero semear. Vamos falar, vamos conversar, mas de quê? Vamos fazer o bem ou o mal? Cada um escolhe, a vida é feita de escolhas", afirma.   Qual o assunto... foi a canção que deu mais trabalho para finalizar, diz a cantora. "Tentamos vários caminhos e nada agradava. Aí veio o estalo do Yuri de chamar o Gabriel. Ele chegou aqui, disse que estava com fome e fui preparar um lanche pra ele enquanto ele fazia. E fomos experimentando até o último instante", relata. O depoimento ilustra a forma descontraída que formata o álbum. Segundo Elba, tudo foi feito sem pressa, "muito sem compromisso". Como o encarte diz, "regado a vinho, pizza, feijão, farofa, arroz e bifes acebolados, entre noites e dias de chuva e sol".   Também no texto de apresentação, Elba Ramalho faz uma ponderação desse novo rumo de trabalho. Diz ela: "por mais que este disco soe diferente de tudo o que fiz, em nada é adverso ao que eu sou". "Quis dizer que por mais que estivesse tocando com Gabriel ou com Frejat continuava sendo eu mesma, a Elba do sertão. Não é que eu quero mudar nada, quero somente abrir mais o leque tanto do texto, da discussão, como da música", comenta.   Com fé, mas sem pregações   Elba ainda dá de ombros para críticas que dizem que ela está querendo pregar ou doutrinar alguma coisa e aproveita para avaliar a situação política atual. "Não sou pastor, tenho minha fé e meu ponto de vista sobre as coisas. Não posso ficar alienada, porque o panorama é assustador. Me sinto palhaça, porque nos enganam, e escrava, porque trabalho para sustentá-los (os políticos)".   Mas a pauta agora é o novo trabalho. Para Elba, o assunto que lhe interessa é o hoje e o amanhã. O passado já foi e a ordem, diz ela, é "o que será que virá, e não o que será que será", numa alusão à canção de Chico Buarque. "Me preocupo muito com o futuro, com essa violência desenfreada, com esse país engolido por corruptos. O futuro da humanidade me preocupa. E o assunto que me interessa é a própria vida".   DVD   O projeto inclui ainda um DVD homônimo, que tem previsão de lançamento para o final de novembro. Nele, a cantora faz um mapeamento de suas referências. Gravado entre fevereiro e maio deste ano, traz a intimidade de Elba em Conceição, sertão paraibano onde nasceu e que revive ao lado do pai João Nunes, de 90 anos, canções que marcaram sua infância. Mostra ainda a cantora em seu refúgio de Trancoso e na tua casa do Rio. São Paulo aparece por ter sido o local onde registrou o show no Auditório Ibirapuera em maio ao lado de Lenine, Geraldo Azevedo, Yamandú Costa, Spok e a Trombonada do Recife, Margareth Menezes, Gabriel, O Pensador, Lula Queiroga e um coral de crianças.   Turnê   A turnê de shows de Qual o assunto que mais lhe interessa? já começou. Estreou em sua terra natal, já passou pelo Sul do País e ainda seguirá pro Ceará e outras cidades do Nordeste. Elba lança o disco nos dias 10 e 11 de novembro no Rio e depois segue para São Paulo, sem data ainda definida.

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