Franz Neumayr / EFE
Franz Neumayr / EFE

'El Maestro' Abreu: o Dom Quixote da música clássica na Venezuela

José Antonio Abreu criou rede de mais de 1.500 orquestras e coros infantis e juvenis, berço do diretor Gustavo Dudamel

AFP

25 Março 2018 | 11h24

José Antonio Abreu, morto neste sábado, 24, aos 78 anos, construiu uma imensa obra social na Venezuela: uma rede de mais de 1.500 orquestras e coros infantis e juvenis aclamada internacionalmente, berço do diretor Gustavo Dudamel.

Conhecido em seu país como El Maestro, este músico e político entendeu cedo que qualquer empreendimento cultural na Venezuela, ainda mais um quixotesco como o que tinha em mente, precisava de grande força e audácia política.

Tudo começou com um ensaio com 11 músicos em um porão no centro de Caracas em 1975.

Desde então, com ajuda do Estado venezuelano, começou a distribuir instrumentos musicais e dar formação a crianças dos bairros mais desfavorecidos - a princípio da capital, mas logo do resto do país, até criar pequenas orquestras locais.

Quatro décadas depois deste encontro, essa engrenagem, "El Sistema", é integrada por 900 mil crianças e jovens, atendidos por 10 mil docentes em toda a Venezuela. Cerca de 75% deles, segundo a instituição, são pobres, e muitos vivem em zonas rurais isoladas.

"São meninos que estamos tirando das drogas e da violência. Só fazer um menino sentar em um ensaio e tocar, quando poderia estar na esquina fumando maconha, já é uma conquista muito importante", disse à AFP há alguns anos o próprio Abreu.

Ele ainda tinha uma meta ambiciosa: alcançar 1 milhão de jovens.

"Um visionário", disse Frank Di Polo, fundador da emblemática Orquestra Sinfônica Simón Bolívar. "Ele sempre soube a magnitude do que poderia ser alcançado".

Como ele, muitos viam Abreu como um mentor.

"Com todo o meu amor e eterna gratidão a nosso pai e criador do El Sistema", publicou Gustavo Dudamel, diretor da Filarmônica de Los Angeles, em redes sociais, ao lado de uma foto sua com Abreu.

"El Sistema" também foi o lar de outros músicos venezuelanos icônicos, como o baixista Edicson Ruiz, o mais jovem intérprete a ser aceito na Filarmônica de Berlim, aos 16 anos de idade.

Seu modelo de ensino inovador, replicado em 50 países, rendeu-lhe diversos e prestigiosos prêmios, como o Prêmio Internacional de Música da Unesco (1993), o Príncipe de Astúrias das Artes (2008), a Legião de Honra da França (2009) e até um Grammy Latino honorário nos Estados Unidos (2009). Ele chegou a ser indicado ao Nobel da Paz em 2012.

Pouco se sabe sobre a vida íntima de Abreu, nascido em 7 de maio de 1939 em Valera (estado de Trujillo, oeste). Não é conhecido de tinha esposa, filhos, ou propriedades.

"Deixou um grande legado moral, ético, cultural (...). Sua obra está nos bairros da Venezuela", lamentou o presidente Nicolás Maduro.

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