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Edy Star tem seu único disco relançado

Álbum 'Sweet Edy' é considerado por muitos como pioneiro da militância gay

Edmundo Leite - O Estado de S.Paulo,

03 Fevereiro 2012 | 21h30

A depressão de Edy Star passou. Após um ano morando num pequeno quarto de hotel perto do Largo do Paysandu por não conseguir comprovar renda para alugar um apartamento, o veterano artista baiano conseguiu se mudar para um prédio numa tranquila rua no bairro da Bela Vista. "Na Europa você aluga um apartamento em 15 minutos", conta Edy, que passou 18 anos como entertainer de cabarés na Espanha.

Quando voltou ao Brasil, mesmo tendo dinheiro para dar como garantia, não conseguia arranjar um lar para chamar de seu por causa das exigências burocráticas do mercado imobiliário. "Estava numa deprê incrível. Não tinha como ouvir minha ópera sossegado, nem arrumar minhas coisas como queria, além de ficar gastando meu pé de meia em diárias."

O aval que viabilizou o aluguel que curou a depressão de Edy veio do DJ Zé Pedro e do produtor Thiago Marques Luiz. Mais que avalistas bancários, os dois se tornaram uma espécie de fiadores artísticos ao resgatar do esquecimento o disco Sweet Edy, gravado em 1974 pela Som Livre e relançado agora pela Jóia Moderna. "A gravadora do Zé Pedro é dedicada somente a discos de cantoras. ‘Mas como você é meio mulher, então tudo bem’, ele me falou".

A primeira faixa do disco cairia como luva para os dias de Edy no hotelzinho: "E dou vexame porque eu preciso de espaço/ Quero respirar se não acabo no bagaço/Atravessando no compasso. Pare de me sufocar... Porque senão eu grito", canta em Claustrofobia, assinada por ninguém menos que Roberto e Erasmo Carlos. "O Erasmo mandou junto com a letra um LP do Kool & The Gang para mostrar como seria o ritmo", relembra. "Tenho esse disco até hoje."

A dupla de compositores mais famosa da música brasileira não é a única a assinar as canções do disco de Star. "Quando o João Araújo me chamou para fazer o LP, depois de ter lançado um compacto com Baioque, do Chico Buarque, e Ai de Mim, de minha autoria, eu resolvi pedir músicas para os meus amigos."

E como naquela época Edy já havia feito muitos amigos na vida como artista plástico, ator, cantor, encenador e folclorista as outras faixas contam com músicas de autoria de Gilberto Gil (Edith Cooper), Caetano Veloso (O Conteúdo), Leno (Superestrela), Jorge Mautner (Olhos de Raposa), do 'negro gato' Getúlio Cortes (Coração Embalsamado) e dos novos baianos Moraes Moreira e Galvão (Pro que Der na Telha).

Gonzaguinha e Zé Rodrix também mandaram suas contribuições, mas acabaram ficando de fora. Raul Seixas, amigo de longa data dos tempos de Bahia e com quem Edy havia gravado em 1971 (junto de Sérgio Sampaio e Miriam Batucada) o anárquico Sociedade da Grã Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez, também ficou de mandar uma canção. Mas, ao seu melhor estilo, não enviou. A faixa prometida, Edy ficaria sabendo depois, havia ficado tão boa que Raul resolveu gravar ele mesmo e botar no seu álbum daquele ano.

O cano dado por Raul nem de longe seria um problema para Edy completar o repertório do seu disco. O guitarrista Renato Piau e o compositor Sérgio Natureza ficaram tão empolgados depois que fizeram uma música para o cantor gravar que resolveram fazer outra.

Cheias de duplo sentido e brincando com a sexualidade do artista, as duas canções da dupla menos estrelada foram as que mais captaram o espírito de cabaré e vaudeville que consagrara Edy na noite carioca em shows por inferninhos da Praça Mauá e boates descoladas de Ipanema. "Meu bem eu sou bombom de cereja/Veja, prove, morda/Não seja bobão", canta um provocante Edy no início da faixa que dá nome ao disco.

Kelly Key nem sonhava em nascer e Edy continuava, agora explosivo: "Babe, baby... / Não fique aí na mão rebatendo peteca / Sou mel para passar no seu pão/ Sweet Edy, Honey Star! / Flor da Lapa, vulcão/Marylin da Mauá / Trancetê do Leblon.

E para colocar mais pimenta no caldo, em Bem Entendido a dupla de compositores recorre já no título ao termo da época para designar os homossexuais: "Chega de brincadeira / já estamos bem entendidos / concubinados, convencidos / Que para um bom entendido / Meia cantada basta)".

Esquecido por mais de três décadas, o álbum Sweet Edy é considerado por muitos como pioneiro da militância gay. Aos 74 anos, Edy não dá bola e rejeita a bandeira. O que o orgulha mesmo no disco é o reconhecimento artístico. "Paulinho da Viola diz que minha regravação de Esses Moços, do Lupicínio Rodrigues, é a melhor de todas". E moços, acreditem, Paulinho sabe o que diz.

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