Edvaldo Santana volta à estrada com poética otimista

A música negra é inerente à obra do cantor e compositor Edvaldo Santana. Os sons nordestinos, oblues, os ritmos latinos, tudo converge na sonoridade que omúsico construiu desde o início de carreira. E é a partir docaldeirão rítmico - múltiplo, porém coerente - que Edvaldoexercita sua poética de cronista, que registra e transforma emletra e música o que enxerga ao redor. Desde os problemas dobairro onde cresceu, sua querida São Miguel, na zona leste deSão Paulo, até as mazelas mais distantes, como as do OrienteMédio. Nem por isso sua música é necessariamente triste,pessimista. Pelo contrário: dentre as dificuldades, ele localizaa cerne da esperança e da alegria de viver. Isso ele fez nosquatro discos de carreira, é bem verdade, mas talvez não comtanta intensidade quanto agora, em seu quinto, Reserva deAlegria. Raízes negrasProduzido com o patrocínio da Petrobras e distribuídopela Tratore, o novo CD é uma síntese potencializada dessapaixão pelas raízes negras e pelo retrato do cotidiano,endurecido, mas sem perder a ternura. Jamais. Com toda essa novabagagem, retorna à estrada com a turnê que estréia nesta sexta,no Sesc Pompéia, em São Paulo. Nela, privilegia o repertórioatual, sem perder de vista a obra pregressa. "Só o fato de estar nesta terra sem reclamar já é umareserva de alegria. Apesar dos problemas, não estou reclamando.Eu produzo, componho, me relaciono, jogo futebol. Faço arte",ele conceitua. "É um trabalho mais espiritual." É no que ele seapega para compor canções como Reserva de Alegria, Quem É Quenão Quer Ser Feliz, Indulgência e Pra Viver É sempre Cedo, todas de sua autoria. "Toda vez que o ciúme toma conta do amor/Na platéia ou no filme acaba causando dor/ E pra deixar vaziaesta vida de ilusão/ Vou guardar minha alegria para o dia deaflição", canta na faixa-título. O que dizer, então, do trechoinicial de "Indulgência": "Não me contamine com a sua amargura/Não é nesta altura da vida que vou me desesperar." A latinidade,mais amplamente visitada neste trabalho, é usada de forma afortalecer esse clima.Várias parcerias No entanto, o Edvaldo otimista não ofusca o Edvaldodenunciador. Em Desemprego, ele lamenta o desespero de quemsai à rua em busca de trabalho, volta de mãos abanando e pára noboteco, para beber fiado. Conta com o reforço do rapper Thaíde,que assina o texto incidental da canção Chacina, parceria deEdvaldo e Arnaldo Antunes. "O Arnaldo tinha me dado essa letrauns dois, três anos atrás, mas não gostei da música que eu tinhafeito para ela." Deixou de lado, até resolver dar uma novachance a ela. "No ano passado, fiz uma versão diferente à música busquei misturar blues com suingue e ficou boa." Ainda emChacina, Cid Campos, filho do poeta Augusto de Campos, foiresponsável pelo arranjo de base, e Bocato, pelo trombone e oarranjo de metais. Além de ser autor do texto incidental, Thaídedivide os vocais com Edvaldo. Com Thaíde e também Rappin? Hood (que participa de PraViver É sempre Cedo, nos vocais e no texto incidental), omúsico faz, como diz, a ponte com outros universos musicais. Ele aliás, sempre se posicionou como artista que aproxima tribos enão se vê inserido numa tendência x ou y. Por isso até afacilidade em dialogar com várias correntes. "Sempre meaproximei dessas misturas, não posso ficar isolado. No outro CD,eu trouxe blues e samba. Desta vez, quis chamar o pessoal dorap", explica. Com o músico Bocato, bastante participativo no CD acredita que faça a ponte com o jazz e com o cantor Chico César com o Nordeste.Vocais com Chico Chico foi convidado para dividir os vocais de Raios doOriente Médio. Há tempos, eles combinavam um trabalho juntos,mas a parceria nunca que saía. "Quando eu fiz essa canção,lembrei dele. Além disso, faz aniversário no mesmo dia que minhafilha", conta. "Ele tem vocalises bem legais, lembra vocalisesde repentinos, misturado com a sonoridade do deserto, que seaproxima da sonoridade do Nordeste." Em meio a todo esse turbilhão de informações, ocompositor encontra tempo para a contemplação. Recomenda a vidasem pressa, com mais atenção em Abelha e Pardal, levada apenasna base dos violões e gaita. Deixe o telefone em paz/ Deixeentrar outros canais/ Sintonize nos sinais/ Enviados para aterra/ Ponderar nunca é demais", sugere na canção, cujo arranjolembra aqueles velhos blues americanos. Há tempo também para o samba, em Jorge Amado no Reinode Oxalá, originalmente um enredo composto para a escola deSamba Unidos de São Miguel. Para o disco, Edvaldo pensou em novoarranjo, sem a parafernália percussiva exigida por uma escola desamba na avenida. Preferiu a simplicidade de violões, cavaco,pandeiro e surdo.Com co-produção do amigo Luiz Waack, Reserva de Alegria trazEdvaldo Santana mais comprometido com suas raízes e convicçõesmusicais. Experimenta, sem medo de ser Edvaldo Santana. Edvaldo Santana. Teatro do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, Pompéia telefone (11) 3871-7700. Sexta, às 21h. R$ R$ 4 a R$ 12

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