WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Edu Lobo: 'Eu não entro em modismos e nunca vou entrar'

Aos 78 anos, compositor comenta sobre a 'crise das melodias', conta porque acha que é ao piano onde se faz as melhores composições e fala do show que fará sábado, 25, ao lado da cantora Mônica Salmaso

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 05h00

Algo diz que o tempo, assim como as estações do ano, não é mais o mesmo. As quintas chegam depois das segundas em dias com menos horas, horas com menos minutos e a vida, por urgente que se torna, com pouco para a contemplação. Aos 78 anos, Edu Lobo sente que tudo está indo rápido demais. Como Tom Jobim e Vinicius, seus dois pais além do biológico, o jornalista Fernando Lobo, Edu é do tempo em que, usando a frase de Tom, “se tomava banho de banheira, não de chuveiro”. As canções tinham introduções, esse bem em extinção, as descobertas dos jogos harmônicos davam prazer e as melodias reinavam. A boa notícia é que esse tempo volta a existir quando ele, Edu, ainda quer. Um ano e meio depois de sentir de casa os dias e as noites desrespeitando o ritmo e acelerando o andamento, Edu Lobo entra por seu portal, encontra a voz de Mônica Salmaso e volta para onde mais gosta de estar, o tempo de suas canções.


O show será apenas neste sábado, 25, às 21h, dentro da série Encontros Históricos da Sala São Paulo. Edu e Mônica estarão juntos e à frente do grupo Brasil Jazz Sinfônica, com músicos que serão conduzidos pelo regente Tiago Costa. Mauro Senise no sax, Jorge Helder no baixo, Jurim Moreira na bateria e Cristóvão Bastos ao piano. Sempre um time dos sonhos. Mônica, com mais de 20 anos desde seus primeiros encontros com o autor, volta como uma das melhores vozes a filtrar suas melodias. E o repertório não brinca. Estão entre elas Vento Bravo, feita por Edu com Paulo Cesar Pinheiro; A História de Lily Braun, com Chico Buarque; Pra Dizer Adeus, com Torquato Neto; e, claro, Ponteio, com Capinam; e Beatriz, com Chico. Gilson Peranzzetta assina a maioria dos arranjos.

Com plateia reduzida e todas as medidas de segurança sanitária tomadas, o show de Edu e Mônica é, para muitos que estarão ali, a volta à vida pulsando depois de dúvidas até mesmo sobre se, um dia, o milenar ato de um show, a celebração física da música que os meios digitais não conseguiram substituir, iria mesmo retornar. É preciso ter coragem? “Olha, tem um ano e meio que não faço nada”, diz Edu, por telefone, de sua casa, no Rio. “Mas chega um momento em que não dá mais pra aguentar. Eu já tomei a segunda dose da vacina e estou me preparando para a terceira.” Edu começa a falar juntando ideias e dando respostas a assuntos que não necessariamente foram levantados. Não importa. Eles são sempre melhores do que as perguntas.

Será que o tempo de se falar em harmonias também passou, como levantou recentemente o compositor Guilherme Arantes em um post em sua página do Instagram? Edu segue sua linha de raciocínio não exatamente para responder a isso, mas com histórias que responderão por si. “Bem, eu ainda acho que devemos ter harmonia, melodia e ritmo, e isso a bossa nova reforçou bastante. A bossa não foi dominada pelo jazz, mas muitas vezes o contrário. E Tom Jobim não era um imitador do jazz, como escreveu um crítico que já se foi (José Ramos Tinhorão).” Edu abre então quase um parêntese para falar que ele está no Instagram, a única mídia social que usa, e que viu por lá cantoras novas que o deixaram bastante feliz. Luisa Lacerda e Vanessa Moreno, por exemplo. “E olha que tem 20 anos que eu não ligo um rádio. Não acho necessário.” 

Ao voltar ao assunto das supostas subvalorizações da harmonia e até da melodia na composição moderna, ele se lembra de um DVD que tem em casa no qual o pianista e maestro argentino Daniel Barenboim entrevista o gigante compositor francês Pierre Boulez, morto em 2016. “Boulez diz na entrevista que a melodia não faz mais sentido. E ele de fato não colocava a melodia como o bolo da festa em sua obra. Eu não consigo ouvir o Leonard Bernstein (pianista norte-americano, morto em 1990), por exemplo, dizendo uma coisa dessas. Essa declaração de Boulez me deixou decepcionado, como ele pode dizer uma coisa dessas? E os jovens que ouvirão isso?” A melodia e a harmonia de Edu Lobo, um homem que já fez Frevo Diabo, Valsa Brasileira, Choro Bandido e ela, Beatriz, a canção que se torna sempre a maior de todas assim que acabamos de ouvi-la, são inegociáveis. “Eu não entro nos modismos, nunca entrei.” E é aqui que ele parte para contar como é que sua composição nasce. Vale a pena saber.

“Olha, o meu processo de composição começa pela harmonia, é por ela que vou construir algo.” Até aí, não há uma grande novidade. Muitos fazem assim. Mas Edu vai além. Suas grandes obras só vieram mesmo quando ele passou a compor ao piano, não mais ao violão. E por quê? “Quando eu compunha ao violão, criava a melodia cantarolando. Ao piano, não é assim. Quem busca as notas no teclado não é a cabeça, são os dedos.” E foi assim que a própria Beatriz ganhou vida. “Existe ali um intervalo de sétima maior que eu jamais faria se tivesse composto com o violão.” Choro Bandido é outra. “Aquele desenho só sairia ao piano, jamais em um violão.” Ele, então, se resume de uma forma curiosa. Edu não é um pianista, tecnicamente falando, mas um “pianeiro”. Ou seja, aquele que jamais vai sair improvisando solos ao instrumento. Se resumirmos então um espetáculo de mais de 60 anos, a partir da origem da bossa nova, seria o piano o instrumento maior de um compositor? É por lá que as grandes obras sairão em comparação com as muitas outras criadas aos violões? “Olha, os pianistas têm sim uma vantagem quando precisam criar as melodias. Eles nunca vão ter as limitações de um instrumento.”

Mas pianos são troços longos, de uma malha de teclas extensa, visivelmente desafiadores e requerem justamente aquilo que não se tem mais, o tempo e o presente. Tocar piano em 2021, deixando os dedos livres para encontrarem a melodia certa, se tornou também um ato de resistência.

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