Edu Lobo e Gal Costa, no palco 35 anos depois

Edu Lobo já era um compositor conhecido, com carreira em rápida ascensão, de muito respeito entre os pares, quando conheceu Gal Costa, em Salvador, em 1965 - ou 1966, talvez. Edu já havia lançado um compacto duplo (aqueles disquinhos de 33 rotações por minuto com duas músicas de cada lado) de bossa nova; havia musicado uma peça - muito importante - de Oduvaldo Viana Filho, Os Azeredos e os Benevides; uma de suas canções, Borandá, com letra do mesmo Vianinha, estava no roteiro do show Opinião, que juntou em cena, em 1964, Nara Leão (depois substituída por Maria Bethânia), João do Vale e Zé Kéti.Ainda em 1964, Edu Lobo escreveu a música da peça O Berço do Herói, de Dias Gomes (cuja história central inspirou a novela televisiva O Berço do Herói), e realizou um espetáculo musical, em São Paulo, dirigido por Gianfrancesco Guarnieri. Edu havia lançado, em 1965, pela Elenco, um dos melhores elepês da história da música brasileira - A Música de Edu Lobo por Edu Lobo (com participação do Tamba Trio, de Luís Eça), e vencido o festival da canção popular de 1965, com Arrastão - letra de Vinícius de Morais -, que foi defendida por Elis Regina.Nessa época, Maria da Graça Penna Burgos Costa era a Gracinha, moça que participava do grupo musical de Caetano Veloso, na capital baiana. Um dia, Edu Lobo entrou no bar - já conhecia Caetano - onde os dois estavam. O colega baiano apresentou a novata ao já muito famoso jovem compositor carioca. Edu pediu a Gracinha que cantasse alguma coisa. Gracinha ficou sem jeito, tímida diante daquele monstro sagrado - ou em vias de tornar-se sagrado. Mas cantou."O som da voz dela era algo novo, insuspeitado, maravilhoso; era uma voz como eu nunca havia ouvido", lembra Edu Lobo. "Fiquei tão encantado que decidi, ali, naquele momento, naquele bar, que meu próximo disco seria dividido com Gracinha." Mas Gracinha, que mais tarde ficaria famosa como Gal Costa, não podia sair de Salvador, era amadora, e o tal disco acabou não sendo feito.Nos anos seguintes, Gal gravaria várias músicas de Edu Lobo - mas jamais dividira palco com ele. Isso foi ocorrer só há pouco menos de dois meses - e assim mesmo por acidente. A casa de espetáculos carioca ATL Hall encomendou um show a Gal e a Baden Powell. Baden adoeceu. O convite foi repassado a Edu Lobo, que não é exatamente bicho de palco: prefere ficar em casa, estudando e compondo (está preparando mais um musical em parceria com Chico Buarque e planeja gravar, no ano que vem, um disco com seu companheiro de geração - e de idéias estéticas - Dori Caymmi. Mas Edu topou.Foram três récitas, no Rio. Edu montou um formato econômico, com três músicos que são seus companheiros de longa jornada: o pianista Cristóvão Bastos, o baterista Jurim Moreira e o contrabaixista goiano Bororó, um nome que vem se tornando referência para o instrumento. Gal achou ótimo: Cristóvão e Jurim são músicos que também a acompanham."Eu lembrava da história do nosso encontro, mas tinha medo de que Edu não se lembrasse", conta a cantora. "Mas ele tem memória excelente e sabe detalhes de que eu mesma não me lembro", admite.Os três shows no Rio transformaram-se numa espécie de unanimidade de crítica e público - mágicos momentos de sensibilidade e sofisticação. Pela repercussão, o Credicard Hall resolveu trazer o espetáculo para São Paulo. Serão duas apresentações, nesta sexta-feira e sábado.Pena que não haja planos de gravar o encontro. "Você sabe como é a política das gravadoras brasileiras, tão imediatistas", Gal Costa se queixa. Ela vai cantar sete músicas, Edu outras sete, e cantarão algumas juntos - dele, de Dori Caymmi, de Tom Jobim, de Dorival Caymmi. "Estamos felizes como duas crianças", diz Gal, e Edu corrobora. Mal que sejam só duas noites.Gal Costa e Edu Lobo - Sexta e sábado, às 22 horas. De R$ 25,00 a R$ 70,00. Credicard Hall. Avenida das Nações Unidas, 17.955, tel. 5643-2500. Patrocínio: ZIP.NET.

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