Edu Lobo diz que novo disco transmite serenidade

Em encontro com a cantora Mônica Salmaso, o compositor fala de seu álbum 'Tantas Marés'

23 de abril de 2010 | 06h00

Edu Lobo e Mônica Salmaso: ela participa do novo disco do compositor. Foto: Epitácio Pessoa/AE

 

LUCAS NOBILE - SÃO PAULO - Dentre tantas cantoras americanas, Edu Lobo respeita e admira Ella Fitzgerald, mas tem paixão mesmo por Billie Holiday. O segredo mora no canto direto e sem firulas. No Brasil, desde a década de 90, por intermédio do pianista Nelson Ayres, ele alucina em Mônica Salmaso. Ela gravara composições de Edu em parceria com Chico Buarque, com reverências dos autores. Rio que corre para o mar em curso natural, não tardaria para que ela emprestasse sua voz para algum tema de um disco do compositor pernambucano. A hora chegou e ela gravou Primeira Cantiga, parceria de Edu com Paulo César Pinheiro, incluída em Tantas Marés. Reunimos Edu e Mônica em uma conversa sobre o disco e os shows de lançamento, que ocorrem nesta sexta, 23, sábado e domingo, no Sesc Pinheiros.

 

som  Ouça trecho de Primeira Cantiga

 

Como foi gravar 'Primeira Cantiga' no estúdio?

Mônica Salmaso - A música nasceu linda, é um troço. Em relação ao estúdio, Edu, eu não vi você gravando, só comigo. Mas tinha um clima muito bom de trabalhar, de trabalho tranquilo, não tinha aquela pilha, estava tudo tão certinho.

Edu Lobo - Foi maravilhoso. Sabe em quantos dias gravamos o disco? Em 12, tínhamos 30 dias, mas nem precisou. Primeira Cantiga estava na trilha do Rá-Tim-Bum.

Mônica - E tinha outro nome, não? Chamava Acalanto.

Edu - Isso mesmo. Eu falei: "Paulinho, a gente tem de descobrir um nome." Aí, acabei descobrindo Primeira Cantiga. É um acalanto. E tem um problema, pois acalanto é um gênero e, depois da do Caymmi, não tem pra ninguém. Descobri também Tantas Marés, que virou nome do disco. A música se chamava Vestígios antes. Liguei para o Paulinho e ele concordou. A gente tem essa vantagem, a gente não briga. Com o Chico eu já tentei trocar alguma coisa, mas não dá, nunca consegui, ele manda tudo pronto, não tem o que mexer. Ele trabalha tanto a letra, tem uma coisa obsessiva.

Mônica - Sobre essas mudanças... Eu gravei A Permuta dos Santos (Edu Lobo e Chico Buarque) com a letra original, depois ela foi alterada. Existe algum caso em que alguém tenha modificado a letra e tenha te desagradado?

Edu - Não. De repente eu canto a letra antiga. O Chico, por exemplo, em Ode aos Ratos. No disco dele, encaixou um rap ali. Eu gravei agora e não coloquei, não me ajeito muito bem com o rap, mas achei engraçado ele fazendo, é legal.

 

Na última entrevista, em fevereiro, Edu, você contava que o fato de ter quebrado o braço impediu-o de fazer 4, 5 composições novas que se somariam às 12 que entraram em 'Tantas Marés'. E nos shows, os arranjos serão diferentes, você vai tocar?

Mônica - Isso eu queria te perguntar também, mudou a reação na hora de fazer o disco? O fato de não estar tocando?

Edu - Olha, no disco, não, mas no show que fiz este ano no Espaço Tom Jobim (Rio) fiquei muito assustado. Eu me perguntei: como é que vai ser? Porque eu tinha uma proteção, que era o violão.

Mônica - O que eu faço com as mãos, né?

Edu - Exatamente. Já não sou exatamente um performer. Peguei o microfone e fiquei concentrado na música, me emocionei imensamente, foi a primeira vez na minha vida que me aconteceu isso. Quando eu vi que acabou Vento Bravo e eu estava com o olho cheio d’água, falei ‘que é isso, cara? Vou ter um enfarte até o fim do show’. E as pessoas também, isso vinha de volta. Eu aprendi uma coisa novíssima na minha vida, que é cantar assim. O que eu faço com a mão? Não sei... Se eu tocar aqui, em São Paulo, vai ser uma música ou duas. O Lula (Galvão) toca muito bem e estou me sentindo muito bem cantando. Não sou um cantor. É diferente de quando a Mônica entra, é uma cantora e o grupo dela.

 

Edu falava também sobre a relação dele com as "baladas", com as músicas mais tristes, dizendo que elas perduram mais na vida das pessoas. Como você sente isso, Mônica?

Mônica - Eu não tinha pensado na durabilidade das músicas mais tristes.

Edu - Elas duram mais, resistem ao tempo porque emocionam mais. Te dou um exemplo. Quando fiz Pra Dizer Adeus, eu a colocava entre Arrastão e Upa Neguinho, que são mais agitadas. Na época, chamavam de "música para baixo".

Mônica - Achavam que tinha que terminar "para cima"...

Edu - Isso. Eu encerrei o show no Tom Jobim com Pra Dizer Adeus. Terminou o show e as pessoas choravam, eu, inclusive. Beatriz eu posso cantar daqui a 30 anos que vai rolar. Arrastão, por exemplo, não consigo cantar mais, ficou datada.

 

Mas e o clima deste disco? Ele tem muitas baladas, mas não chega a ser triste...

Mônica - Achei que o disco tem uma elegância, uma felicidade madura.

Edu - Acredito que tem uma serenidade, acho que é a palavra.

Mônica - A sensação que o disco traz é de felicidade, você olha e diz, está tudo certo, é tão fora de moda isso, né? Agora a felicidade é histérica. Eu senti essa calma no estúdio quando fui gravar, senti esse clima.

Edu - Muito se deve ao Gabriel Pinheiro, engenheiro de som, ele foi um parceiro. O hábito meu com engenheiro de som não era exatamente assim. Gravei fora daqui com gente bacana. Aliás, um negócio que tem fora, 80% dos engenheiros de som leem música.

Mônica - E diretor de edição? Na Osesp, eles fizeram um especial de fim de ano. O diretor acompanhava a partitura com uma grade de orquestra para ver se estava certo. Aqui, o aprendizado é meio de orelhada.

Edu - Exatamente, mas não pode ser, porque você tem o código todo do que vai acontecer na gravação, em vez de você ficar perguntando ao cara, eu já vi engenheiro de som perguntar: "Como é o nome daquele instrumento ali que parece uma bazuca?" Era um fagote, o cara não sabia, nunca tinha visto um.

Mônica - É uma faca de dois gumes. Se tem um Gabriel que entendeu e usa da melhor forma, por outro lado tem uma relação das coisas em que o técnico está produzindo. Já vi gente editar sem perguntar, corrigindo, cortando ou até afinando sem perguntar.

Edu - No disco Meia-Noite, eu gravei Beatriz com o Milton. O técnico era americano, um cara ótimo. Ele cismou que a gente estava muito sibilante em Beatriz, aí passou por um filtro e eu virei o Cazuza e o Milton, também. Será que ela é moça? (cantando com a língua presa) E para explicar que as pessoas iam rir? Até a sala de corte deu problema, ele não queria abrir mão. Ficou triste, é uma pena.

Mônica - Vejo gente hoje se incomodando com "imperfeições", como se isso não fosse mais musical. A música sempre foi um ofício que precisa ser respeitado.

 

EDU LOBO - Sesc Pinheiros. R. Paes Leme, 195, 3095-9400. Sextsa, 23, e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 40

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