Breno Galtier
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Eddie Vedder promove convite à intimidade e apresenta suas dores e saudades com show em São Paulo

Vocalista do Pearl Jam deu início à série de três apresentações na cidade nesta quarta-feira, 28

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

29 Março 2018 | 09h37

“Não seja um Trump”, diz, ao microfone, uma funcionária da produção de Eddie Vedder, em alusão ao presidente norte-americano. O pedido era claro: celulares estavam proibidos no show do vocalista do Pearl Jam. Quem puxou o aparelho,  levou bronca da equipe de Vedder e do Citibank Hall.

Vedder fez um convite ao seu íntimo e, por isso, queria que o momento fosse guardado ali, gravado na memória, não nessas pequenas máquinas de bolso sacadas a qualquer momento em apresentações normais.

Diferentemente da grandiosidade inerente e esperada de uma apresentação do Pearl Jam, no qual a força das canções se equivalem à voz poderosa do seu cantor, na apresentação solo, Vedder pode ser quem quiser. Abre-se às emoções tão próprias e profundas, no fundo, tão íntimas, que estabelece um outro tipo de relação com o público, cerca de 4,1 mil pessoas, responsáveis por esgotarem os ingressos nessa primeiras de três noites - ele se apresenta, ainda,  nesta quinta, 29, e sexta 30.

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Embora seja o mesmo, Vedder, quando está só, surge sem o personagem roqueiro. Deixa-se aparecer, tímido nos primeiros minutos. Surge no palco mais curvado do que o normal, dirige-se ao órgão posicionado de uma forma com a qual ele canta a primeira música de costas para o público.

Levou um tempo para conversar com a plateia diante de si, mesmo que o público lhe chamasse e  pedisse canções despudoradamente. Como se, por alguns minutos, estivesse esquecido que tinha companhia nesse seu quarto, decorado com os instrumentos percorridos ao longo da noite.

Já tinha encerrado a quinta música da apresentação quando ouviu um dos muitos chamados pelo seu nome. Um rapaz pedia insistentemente por Guaranteed, do disco/trilha sonora Into de Wild e vencedora do Oscar.

“Para ser músico, é preciso ter duas coisas”, ele diz, bem pausadamente. “Timing e paciência”, Vedder conclui. “E coragem, mas isso você também tem”.  Guaranteed viria, logo mais, na sessão do show dedicada à trilha sonora.

Dentro do seu habitat, Vedder mostra mais quem é na intimidade. Desorganizado, perde-se entre os instrumentos que lhe rodeiam (violões, bandolim, banjo, ukelelê), perde-se entre os papeis com as frases a serem lidas em português. É um caos pelo qual, entre um gole e outro de vinho, Vedder encontra seu caminho.

Quando, de fato, se dirige ao público, Vedder promete um show que cante a saudade. “Boa noite”, ele fala, “as músicas que vou mostrar aqui são sobre perder… E não estou me referindo ao futebol. Desde a última vez que estive aqui (em 2014), perdi muitos amigos. Meu herói (Tom Petty) e meu irmão (Chris Cornell). Espero que vocês não tenham passado por algo assim, mas, se tiverem, vamos cantar para eles”.

Ao convidar o público para o seu universo, Vedder se sente mostra como anfitrião, distribui vinho para algumas pessoas da plateia, e exibe uma seleção de canções que lhe tocam, costuradas pelo sentimento de perda.

Dos seus discos solo, toca Far Behind, Rise e Guaranteed, do Into the Wild - e, na última, chama pelo rapaz que tanto pediu pela canção e deixou-o assistir à performance próximo ao palco. Do mais recente álbum, Ukelele Songs, de 2011, tocou a linda Without You.

Pearl Jam é lembrado oito vezes, desde as primeiras músicas do show, quando Long Road foi a terceira tocada da noite, até o fim: Porch encerrou a apresentação. Ainda vieram I Am Mine, Just Breathe, Sometimes, Wishlist, Light Years e Immortality.

É com os covers, contudo, que Eddie oferece esse retrato de si. Walking the Cow, de Daniel Johnston,  e Brain Damage, do Pink Floyd, ele canta sobre os fantasmas que existem dentro de cada um. Tanto Johnston, ainda vivo, quanto Syd Barrett (o primeiro vocalista do Floyd no qual Roger Waters se inspirou para compor a canção) lutaram contra essas agonias mentais - e perderam.

Era um show sobre perda, afinal, como Vedder avisou. Com isso, ele lembrou do herói Tom Perry, fez sua homenagem ao amigo Chris Cornell, seguindo para algumas canções que marcaram a vida do músico. Ele vai de John Lennon (Imagine) a Bob Dylan (Masters of War), passa por U2 (Bad) e chega em James Taylor (Millworker).

Nada, no show, é mais impactante quando as primeiríssimas notas de Hurt, canção de Trent Reznor, do Nine Inch Nails, composta quando a dependência química dele criava um labirinto interminável dentro da sua própria cabeça. A canção, posteriormente, ganhou uma versão tocante de Johnny Cash, já ao fim da vida. Cash a gravou em 2002, viu sua amada June Carter morrer em maio do ano seguinte e se foi em setembro, meses depois.

Ao nos deixar adentrar novamente no seu mundo, Vedder evidencia que os foram sombrios. Embora seja simpático e brincalhão com o público, como em 2014, a cabeça dele agora gravita por temas mais sombrios. É tudo tão íntimo que se torna compreensível o pedido para que as fotos e vídeos fossem evitados. Caso contrário, seria algo assim: “nossa, estou sofrendo”, diz um, “péra, deixa eu tirar uma foto dessa sua lágrima”, responde o outro.

Vedder segue em São Paulo. Ele se apresenta nesta quinta-feira, 29, e sexta, 30, no Citibank Hall, com ingressos esgotados. O show de abertura é de Glen Hansard, “um dos meus melhores amigos”como explicou o próprio Vedder.

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