Eclético, maestro Gilberto Mendes era fã de futebol e cinema

Músico foi colunista do ‘Estado’, torcia para o Santos e elogiava cineastas que colocavam a trilha sonora a serviço da narrativa

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2016 | 22h14

O ano de 2016 já diz a que vem e, logo no primeiro dia, nos leva o maestro e compositor Gilberto Mendes. Gilberto, para começar a falar nele, é pessoa de primeira importância na música erudita brasileira, em sua modalidade contemporânea – quer dizer, a menos popular de todas. 

No entanto, santista de nascimento e clube, compôs uma peça popular maravilhosa para seu time do coração. Santos Football Music, talvez sua obra mais conhecida, aproveita no título a grafia original do time da Vila, em inglês. E inovava tanto na forma musical quanto inovava aquele ataque que ele amava formado por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. A música utiliza a narração futebolística de rádio e transforma a plateia em torcida, sob as ordens do regente. Este levanta placas e pede que a galera, ou melhor, o público, se manifeste com aplausos, vaias ou mesmo aquela famosa exclamação Uuuh!!! de um gol perdido. Ou seja, transforma um teatro em estádio e traz para dentro do ambiente erudito a emoção de um grande jogo. Essa composição serve de exemplo para esse espírito inquieto e sempre não apenas aberto a novidades, mas ele mesmo portador do novo. 

Nesse sentido, conversar com o maestro era sempre um prazer. Espírito lúdico, brincava sempre e gostava de estabelecer conexões entre as coisas. Escrevia muito bem e foi colunista do Estado durante bom tempo. João Luiz Sampaio e eu fizemos uma longa entrevista com Gilberto Mendes para o jornal quando ele lançou seu fundamental Viver sua Música (Edusp, Realejo, 2009). A conversa, de horas, em sua casa, girou, claro, em torno da música, mas também de outras artes, em especial o cinema, que ele adorava. Gilberto nos dizia que, para ele, um dia sem ver pelo menos um filme não era um dia completo. E que seu gosto era eclético.

Via, em companhia da sua esposa Eliane, de clássicos da era dos estúdios americanos, ao melhor da produção europeia e brasileira. 

Reuniu seus escritos sobre esse tema em Música, Cinema do Som (Editora Perspectiva, 2013), uma antologia que se lê com grande prazer, talvez o mesmo prazer que ele sentiu ao escrever os textos que comparavam maneiras diferentes de colocar a música a serviço dos filmes. Por exemplo, destacava cineastas que sabiam colocar a música a serviço da narrativa, como era o caso de Stanley Kubrick. “2001 – Uma Odisseia no Espaço seria impensável sem o Richard Strauss de Assim Falou Zaratustra, a valsa Danúbio Azul ou Gyorgy Ligeti de Lux Aeterna.” O mesmo Kubrick usa de forma magistral Bartók, Ligeti e Penderecki para criar o clima assustador do Hotel Overlook em O Iluminado, elogiava. Ao mesmo tempo, dizia, o cinema brasileiro tem mais dificuldade em utilizar a música de maneira funcional. A exceção era Glauber Rocha, que se servia muito bem de Villa-Lobos em seus filmes. 

Gilberto Mendes foi um gênio da música erudita contemporânea. Foi um intelectual completo ao escrever, partilhando erudição sem qualquer esnobismo. Era também grande personagem da cidade de Santos, que deve agora reverenciá-lo como seu filho mais ilustre desaparecido. Não trocava Santos por nada. Amava caminhar pela praia e contemplar a Ilha Urubuqueçaba, próximo da sua casa. “A minha Ilha do Tesouro”, brincava, referindo-se ao grande livro de Stevenson. Gilberto teve uma bela e longa vida, e deixa magnífica obra atrás de si. Foi um privilégio conviver com ele. 

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