OVO
OVO

É um TikTok! Não, é uma música! Drake e o looping da reação viral

'Toosie Slide' estabelece um parâmetro baixo para participação — é uma canção para dançar que mesmo quem não consegue dançar consegue dançar

Jon Caramanica, The New York Times

09 de abril de 2020 | 17h31

O novo single de Drake, Toosie Slide, foi lançado na sexta-feira, 3, mas isso apenas se você pensar no lançamento à moda antiga de uma música — ou seja, uma canção completa e um vídeo oficial divulgado pelo próprio artista.

Toosie Slide saiu na verdade uns dias antes, quando um conhecido dançarino de hip hop chamado Toosie postou um clipe de si mesmo e de alguns amigos famosos fazendo uma coreografia suave no chão para uma pequena seção da música então sem título, incluindo o refrão crucial para a dança: “Right foot up, left foot slide/Left foot up, right foot slide” (pé direito pra cima, pé esquerdo desliza, e vice versa).

A voz era de Drake, mas a faixa era um mistério. De maneira instantânea, o vídeo, e mais definitivamente o passinho, entrou no furacão de conteúdo do TikTok e começou a se espalhar.

Drake, que está num relacionamento simbiótico com a internet viral por quase toda sua carreira, encomendou o passinho, e quando fez o lançamento oficial, Toosie Slide já era um hit. No clipe de fato da música, Drake passeia pela sua mansão em Toronto com uma balaclava e luvas — um estilo de vida com distanciamento social dos ricos e famosos — e não hesita em fazer o passo essencial. Mas há algo estranho acontecendo: ele está participando de um esquema de sua própria lavra, mas também é apenas uma outra pessoa emulando um passo de dança popular, como se ele não fosse tanto o alfa quanto o ômega.

Toosie Slide estabelece um parâmetro baixo para participação — é uma canção para dançar que mesmo quem não consegue dançar consegue dançar. É, primeiro, uma estratégia de marketing, em segundo lugar, uma música. Talvez isso seja inevitável, porém. Os limiares de atenção estão encolhendo, e os modos de distribuição mais efetivos favorecem o breve e o interativo.

Os vídeos do TikTok acabam sendo o equivalente de um trailer de cinema lançado antes de o filme ser terminado. O poder da plataforma anda lado a lado com o crescimento da cultura do “snippet” (trecho), na qual partes de canções tocadas por rappers — Playboi Carti e Lil Uzi Vert, entre outros — nas redes sociais se tornam favoritas cult, e às vezes mais populares do que os hits em si.

Cada vez mais, o jeito de acabar com a desordem é fazer menos, e deixar uma sede — e uma oportunidade — para mais.

Isso tem acontecido organicamente no TikTok desde o início do aplicativo: TikTokers mineram músicas (novas e antigas) para trechos que possam reinventar com coreografias curtas ou vídeos cômicos. Veja as danças populares recentes, como a de uma-pose-por-clima de Savage, de Megan Thee Stallion, ou a trilha sonora para a loucura em cima do passinho Renegade: Lottery, de K. Campo — ou pelo menos o começo de Lottery, uma música em que K. Camp afinal rima. No caso de What's Poppin, de Jack Harlow, os clipes não apresentam uma dança, mas milhares de jovens bonitos flertando sem vergonha com as câmeras de seus telefones.

Toosie Slide meramente antecipou a reação — por que não ir direto ao ponto? / Tradução Guilherme Sobota

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.