É o amor, que mexe com a cabeça e me deixa assim

Crônica publicada originalmente no caderno Variedades do Jornal da Tarde de de 14/10/2007

Júlio Maria, julio.maria@grupoestado.com.br,

27 Outubro 2007 | 18h27

Um dia, a confissão seria inevitável. Abrir o coração sobre certos assuntos no meio de jornalistas críticos de música ou de músicos críticos de jornalistas sempre foi uma questão bem complexa. Vivendo entre xiitas e sunitas por dez anos, afoguei minha opinião como se ela não existisse, como se fosse um desvio de caráter a ser reparado silenciosamente, uma doença a ser curada por si só. Me tornei um covarde para não ser banido das rodas dos músicos e um hipócrita para ser aceito na dos jornalistas. Não preciso mais disso. Minha confissão de agora pode inspirar outros a saírem do armário, a revelarem seus sentimentos mais reprimidos. Chega. Eu gosto de Zezé Di Camargo e Luciano! Quantas músicas desses sertanejos cantei na mente sem deixá-las sair pela boca. Quantos CDs ouvi sozinho no inferno de um carro com vidros fechados até o alto. Pode dizer a canção que eu digo o ano. ‘Bandido com Razão’: 1994. ‘Toma Juízo’: 1997. ‘Diz pro meu Olhar’: 2001. Sei os tons originais e aprendi até a segunda voz de algumas, mesmo sabendo que jamais poderia mostrá-las. Assisti a Dois Filhos de Francisco três vezes e chorei em duas . Um mesmo homem não pode ter um diploma de curso superior e se emocionar com Zezé Di Camargo e Luciano. Ou melhor, poder até pode, só não deve sair dizendo isso por aí. Uma pesquisa rápida e nada científica feita por mim mesmo em 20 minutos de telefonemas com formadores de opinião e empresários classe média para alta atesta a preferência nacional quando se fala de música brasileira: Chico Buarque, Gilberto Gil, João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Morais. Sempre os mesmos. Meus pesquisados são uns mentirosos. Ao saber que sua opinião sairá no jornal, escolhem os mitos para serem aceitos. Jamais confessarão ouvir mais Zezé Di Camargo do que João Gilberto para não colocar sua reputação em risco. Se tivesse um mandado judicial, entraria em suas casas para dar o flagrante em suas prateleiras. É lá que dormem Alexandre Pires, Zeca Pagodinho, Joanna, Elba Ramalho, Rosana, Fabio Jr., Calypso, Rick & Renner, Sandy & Junior, Rionegro & Solimões, Agepê e Odair José. Um homem que diz gostar de Zezé Di Camargo & Luciano só não é pior do que aquele que diz não gostar de João Gilberto. Então, depois de chegar ao fundo do poço revelando meu apreço pelos sertanejos, pego uma pá para cavar mais um pouco. Já ouvi muito crítico falar pelos corredores o que vou dizer aqui, mas jamais li uma frase a respeito. O último disco de Chico Buarque é insuportável. De tanto pensar em como e onde colocar cada nota, tirou a vida de suas canções e se tornou um matemático que faz música como quem calcula raiz quadrada. Quero alguém que tenha decorado uma letra desse disco do início ao fim. Quer mais? João Gilberto, outro mito, é um nostálgico que vive sem compor uma única canção há décadas. No último show que fez em São Paulo, no Tom Brasil, contei três desafinadas, mas não li isso em nenhuma crítica de jornal. Seus shows são como suas interpretações, cada vez mais lineares. Início, meio e fim têm a mesma temperatura, e chega uma hora que isso dá é sono. Mas os maiores ataques a quem ouve Zezé Di Camargo & Luciano vêm dos roqueiros, gente que gosta de Van Halen, Iron Maiden e Metallica. Diogo, o ilustrador que fez essa caricatura aí no meio da página, é um deles. Temos aqui um flagrante da retaliação que sofri logo pelo primeiro indivíduo que leu minha confissão. Veja a fotinho no alto direito da crônica e a compare com a ilustração. Não sou um cara tão feio assim, mas ele tentou me destruir. Como diz Zezé em uma de suas geniais canções: ‘toma cuidado, a vida muda o jogo de repente’. O jogo está mudando. Uma pesquisa recente confirmou os irmãos sertanejos como os mais ouvidos pelos jovens brasileiros ao lado da banda Calypso. O problema é que meus amigos músicos e jornalistas agora desqualificam o País para destruírem a pesquisa e, conseqüentemente, matar os cantores. Dizem que cada povo tem a música que merece.

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