É a vez de Tom Zé homenagear São Paulo

Tom Zé será o último expoente do tropicalismo - depois de Caetano Veloso e Rita Lee - a participar da festa dos 450 anos da cidade onde o movimento foi deflagrado. O baiano de Irará traz hoje para o Sesc Carmo, com ingressos esgotados, o seu "teatro pobre", como costuma classificar seus shows, parafraseando Grotowski. "Eu que não sou cantor e não faço música nem espetáculo contemplativo, tenho de encenar uma peça", diz. Para quem tem no currículo a reputação de ser o autor com maior número de músicas com São Paulo como tema - cerca de 30 -, não foi difícil montar o roteiro. A mais evidente é São São Paulo, que o senso comum classifica como uma declaração de amor à cidade. Mas a perspicácia de Tom Zé não comporta "esse lero-lero de amor". Em letras como as de Botaram Tanta Fumaça, Augusta, Angélica e Consolação e A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel revela um olhar crítico e bem-humorado sobre os costumes, a moral e os detritos paulistanos. "São Paulo me prendeu. Não pude sair daqui pelas condições que a minha música criou. Quando os meus discos sumiram das lojas, nos anos 70, eu só poderia me manter numa cidade e num Estado como estes, que têm um público universitário grande", diz. Tom Zé chegou a São Paulo em 1965, trazido por Caetano Veloso. "Quando descobri que não conseguia fazer música bonita, contemplativa, consegui ser artista com maluquices, transformando os personagens de Irará em forma de música", lembra. "Em Irará diziam para eu tomar cuidado, porque o povo daqui era bairrista e que se eu viesse fazer aquelas maluquices seria castigado." Ao chegar na capital, foi morar numa pensão em Higienópolis. Caminhando pela rua num dia frio deparou com a manchete de um jornal sensacionalista: "Prostitutas invadem o centro da cidade". Veio daí a idéia de compor São São Paulo, que depois inscreveu no festival da Record. A advertência trazida na bagagem virou pesadelo. "Sonhei que os paulistas corriam pra me pegar e dar uma surra por causa da música", conta. A composição foi rejeitada numa primeira triagem. Ao constatar o erro, o poeta Augusto de Campos convenceu os colegas de júri a reconsiderá-la. Acabou vencedora do Festival da Record de 1968, no auge do tropicalismo, que aos olhos da esquerda estudantil era uma "traição à MPB e um entreguismo à música americana". Caetano disse na semana passada que o tropicalismo só se deu por causa de São Paulo, já que no Rio o público e os músicos eram "muito reacionários". Tom Zé concorda em parte. "Realmente só poderia ser em São Paulo. Mas não que o público daqui fosse mais aberto. O meio estudantil paulista era até mais reacionário e provinciano que o carioca. Mas a classe universitária deu força ao tropicalismo justamente por isso. Nada dá certo se não tiver alguma coisa contra", diz. Daí a opção pela crítica em vez da declaração de amor à cidade.

Agencia Estado,

26 de janeiro de 2004 | 13h14

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