DVDs contam como Elvis manteve seu rebolado

A saga de Elvis Presley e sua afiada intuição está em uma série de DVDs lançada pela empresa ST2. Os três volumes de Elvis Presley - The Great Performances (R$ 65 cada, em média), todos legendados em português e com acabamento cuidadoso, contam a mesma história sob três focos diferentes. É a vida e a obra de um homem que misturou as duas coisas para estrear a era dos mitos. A vida foi um torpedo lançado na cidade de Tupelo, 1935, e desativado em uma mansão de Memphis, Tennesse, 42 anos depois. A obra quase acabou ali mesmo, naquele rebolado no auditório de Milton Berle, em 1956. A censura queria tirá-lo da televisão. Os políticos conservadores queriam sua cabeça. As mães queriam sua incineração. Uma cena do primeiro DVD mostra um líder comunitário fazendo discurso a alguns pais de família: "Eu acredito, de todo o coração, que o rock-and-roll é um fator que contribui para a delinqüência juvenil. Sei disso porque sei como é quando você o canta. Sei o que ele faz com vocês. Sei do sentimento ruim que sentem os que cantam. E a batida. Se vocês falarem com os adolescentes e perguntarem o que eles gostam no rock-and-roll, a primeira coisa que vão dizer é ´a batida´, ´a batida´, ´a batida´." Um alto político da cidade de Jersey City faz outra pregação: "Fizemos o impossível para trazer shows para os adolescentes da nossa cidade. Mas, baseado em fatos, sentimos que esse rock-and-roll tem sido semente de problemas. E queremos manter os problemas fora de Jersey City." Os problemas estavam nos quadris de Elvis Presley. Ed Sullivan - o Silvio Santos da TV americana que apresentou um programa musical de auditório por 23 anos - fechou-lhe o zíper. A ordem aos câmeras era clara: só deveriam filmar Elvis Presley da cintura para cima. Elvis, castrado de seu maior trunfo, aparece no palco de Ed Sullivan cantando Don´t Be Cruel em 1957 e rendendo uma das maiores audiências da TV americana. Isso só não foi pior do que a tentativa desastrada de fazê-lo bom moço um mês depois do escândalo no palco de Milton Berle. Elvis, para acalmar a fúria das mães de 1956, vestiu smoking, arrumou a franja e entrou com passos de seminarista no auditório do programa Steve Allen Show. Chegou apresentado por Allen como "o novo Elvis Presley". Sobre uma mesa havia um cachorro com uma cartola. Elvis cantou Hound Dog olhando para um cão desconcertado. O animal olhava para Elvis, Elvis olhava para o animal e os dois contavam os segundos para sumirem dali. No dia seguinte, Elvis foi para os estúdios de sua gravadora e encontrou uma manifestação na porta. As filhas das mães de 1956 estavam furiosas. Queriam seu Elvis Presley de volta. Ninguém mais controlaria a máquina. Elvis e seu quadril iriam para as estrelas nos anos 60. Ele gravaria 33 filmes - "a maioria deles descartáveis", segundo o próprio documentário -, faria shows em 125 cidades, venderia milhões de discos e se apresentaria no Hawaii, em 1973, para ser visto via satélite por um bilhão de pessoas - um quarto da população mundial na época. A morte de sua mãe e o divórcio de Priscilla Presley seriam seus infernos. Ao receber um prêmio nos anos 70, Elvis derrubou a muralha na qual se resguardava: "Eu lia histórias em quadrinhos e fui o herói delas. Eu assistia a filmes e fui o herói do filme. Cada sonho que tinha se tornou realidade centenas de vezes. Aprendi cedo que, sem uma canção, o dia nunca acabará. Sem uma canção, o homem não tem um amigo. Sem uma canção, a estrada não terá volta. E então, é por isso que eu continuo cantando."

Agencia Estado,

23 de agosto de 2004 | 15h36

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.