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DVD traz imagens da montagem da ópera 'Don Giovanni'

Diretor usa conceito de sedução demoníaca do filósofo Kierkegaard para criticar o materialismo moderno

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2015 | 03h00

Na estreia da montagem de Don Giovanni no Teatro alla Scala, em 7 de dezembro de 2011, além de fanáticos que chegaram a pagar ¤ 2.400 por um ingresso, estavam presentes autoridades e políticos conhecidos por patrocinar noites de bunga bunga. O diretor da montagem, Robert Carsen, parecia se dirigir aos mesmos ao fazer seu Don Giovanni (o barítono Peter Mattei) emergir da plateia como um deles, subir ao palco e puxar com toda a força uma falsa cortina vermelha, fazendo surgir um espelho diante do qual sua imagem distorcida se confundia com a do público. Embora não fosse um recurso muito original (Bob Fosse fez isso no epílogo de Cabaret), Carsen, logo na ouverture, induziu o público a uma leitura da ópera de Mozart muito próxima do ensaio de Kierkegaard sobre ela, associando as sucessivas conquistas amorosas do sedutor a um diabólico jogo repetitivo, destinado a apagar qualquer traço de individualidade das vítimas.

Na visão do diretor Carsen, o hedonismo contemporâneo, ao banalizar o sexo e transformar parceiros em criaturas intercambiáveis, não está nada distante da patológica mania de Don Giovanni, de sequestrar a identidade das mulheres ao elaborar listas de suas conquistas. Tanto que o catálogo apresentado pelo criado Leporello (o barítono Bryn Terfell) se assemelha à marcações verticais que os prisioneiros fazem em suas celas para registrar os incontáveis dias de cadeia. Carsen transforma Giovanni num prisioneiro do próprio desejo, que traz o inferno dentro de si, mas não avança muito no terreno das interpretações originais – como a de Joseph Losey, para ficar num único exemplo.

Carsen faz da repetição um jogo metafórico nem sempre atraente. As inúmeras trocas de figurino de Don Giovanni, para acentuar sua vaidade, são dispensáveis, assim como é enfadonha a quantidade de pratos diferentes na mesa do sedutor. Tudo é excessivo, menos as vozes do excepcional elenco reunido na montagem do La Scala, de Anna Netrebko (donna Anna) a Stefan Kocan (Masetto), passando por Barbara Frittoli (dona Elvira), Kwangchul Youn (Comendador) e Anna Prohaska (Zerlina).

E, afinal, é isso que interessa. Embora Peter Mattei seja duro como a estátua do Comendador e sensual como uma placa de isopor, ele até ensaia duas ou três posições eróticas logo na introdução do primeiro ato, quando é flagrado na cama com donna Anna – e a lingerie ensanguentada de Anna Netrebko, ao segurar o pai morto, passa a ser mais uma na coleção de metáforas de Robert Carsen. Netrebko, soprano russa que fez sua primeira performance no La Scala em 1998, marca seu début como donna Anna no teatro de Milão, mas já havia interpretado a personagem em 2002, no Mariinsky. Ela e Barbara Frittoli são as duas melhores presenças ao lado do Comendador Kwangchul Youn.

As diferenças entre elenco masculino e feminino ficam mais acentuadas entre Peter Mattei e Barbara Frittoli, especialmente porque Mattei parece mostrar uma desequilibrada frieza diante das vigorosas acusações de dona Elvira. O Don Ottavio de Giuseppe Filianotti tampouco é expressivo. Sua voz chega à beira do precipício no segundo ato, em Il Mio Tesoro intanto. O Masetto do baixo Stefan Kocan é mais vivo. Ainda assim, a Zerlina de Anna Prohaska domina a cena. Bryn Terfell aproveita sua experiência anterior em solo wagneriano para temperar fúria, desespero e humor como Leporello.

Se o Don Giovanni de Mozart permanece misterioso desde que foi criado – afinal, não se sabe o que significa sua obsessão pelo divertimento – Leporello reproduz, em versão miserável, o retrato do patrão, ainda que não ouse ofender os céus, eliminando a fronteira entre vida e morte. A direção de Carsen não se opõe à classificação da ópera como um drama giocoso, mas prefere encarar a peça como a tragédia contemporânea do hedonismo laico. Não é um DVD para agradar a todos.

DON GIOVANNI

Direção: Robert Carsen

Regência: Daniel Barenboim

Lançamento: Universal

Preço: R$ 52

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