Dupla cega africana abre TIM Festival

Uma das principais atrações do TIM Festival é o casal de cantores e compositores africanos Amadou e Mariam, do Mali. Eles se tornaram um dos maiores fenômenos musicais recentes na Europa com o disco Dimanche à Bamako, produzido por Manu Chao. Amadou e Mariam, que são cegos, falaram ao Estado nesta sexta-feira, no restaurante de um hotel em Copacabana, horas antes de se apresentarem no TIM Festival, na Marina da Glória, numa jornada que terá ainda a cantora Céu e o cantor texano Devendra Banhart. Eles contaram que já têm pronto o disco que sucederá o megahit Dimanche a Bamako, mas que ainda falta o nome de um novo produtor. Amadou disse que a dupla têm feito "mais de cem concertos" por ano e passa a maior parte do tempo longe da capital malinesa, Bamako, onde vivem com os filhos. O ministro da Cultura do Mali, Sheik Oumar Sissuko, em visita recente ao Brasil, disse que há uma profusão de grandes artistas no Mali, mas não há meios para a produção dessa música, o que impede que chegue ao resto do mundo. É assim que se passa?Amadou - O problema maior não é a gravação, a produção, mas a distribuição da boa música do Mali. E também a profissionalização. Não há bons engenheiros de som, não há material adequado. Há também a questão de que muito da música do Mali é feita no sistema de griôs, um processo familiar e artesanal. Qual é a influência do sistema dos griôs na música de Amadou & Mariam?Amadou - É diferente, porque nós fazemos música popular. Canções do cotidiano, que falam de amor, liberdade, justiça. A música dos griôs é a música da história, que fala das grandes personalidades do País, a música dos rituais, do casamento, do funeral. A nossa música existe para dizer o que se passa no cotidiano. É uma mensagem do que se passa no Mali.Uma crítica que se faz ao seu disco mais popular, ´Dimanche à Bamako´, é que a produção de Manu Chao globalizou seu som, que ele não se parece mais com o som que faziam antes, que era mais africano. Agora, vocês são mundializados.Amadou - O encontro com Manu Chao é uma mestiçagem, uma mistura. É correto dizer que a música desse disco é mais moderna do que a dos outros discos. Nos chamam, no Mali, de cantores modernos, e é porque nós fazemos questões de abrir nossa música para o mundo, para as influências. Gostamos de soar abertos ao mundo. E quanto à música brasileira, o que vocês conhecem?Amadou - Muita coisa. Gilberto Gil, Moreno Veloso. A escola de samba da Mangueira. (Mariam cantarola Mas que Nada, de Jorge Ben Jor). A música não tem fronteira. A música brasileira, como a africana, é baseada no ritmo, e essa é a conexão. Vocês já têm um disco novo pronto?Amadou - Sim, será lançado em 2007. Não tem nome ainda. Sempre que vamos gravar, temos mais música composta do que cabe num álbum, então muita coisa fica de fora. A primeira vez que ouvi falar de vocês foi por intermédio do cantor e guitarrista malinês Ali Farka Touré, que morreu recentemente. O que vocês pensam de Ali Farka Touré?Mariam - É um irmão. Um músico muito importante. Ele fez blues, e por isso é tão conhecido no mundo todo. Está na vanguarda da música do Mali. A música que Ali fazia, bambara, está na origem do blues americano. Ele não era bambara, mas tocava essa música, que usa a guitarra de quatro cordas. Há muitos bons músicos que fazem sucesso na Europa e que vieram do Mali, como Salif Keita, Oumou Sangaré, Habib Koité. Qual é o seu preferido?Amadou - Não há essa história de preferência. Salif é o mais velho, foi o primeiro a ir para França e abriu o caminho para nós todos, há 24 anos. Ele canta a manding. Depois, veio Oumou Sangaré, que faz a música wassalu. Habib faz música mais moderna, e é mais próximo de Salif, que faz as duas coisas. Todos são importantes, todos têm seu caminho.

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