Duo Quase Acústico lança primeiro CD

São Paulo consolidou-se como um dos mais importantes centros da música instrumental brasileira. Entre outros motivos, pela tradição de revelar músicos de grande talento, como o violonista Garoto, nos anos 30, ou o pianista César Camargo Mariano, na década de 60. Neste início de século, a vitalidade da música instrumental paulistana continua a ecoar alto com o novíssimo Duo Quase Acústico, formado pelos violonistas e guitarristas Renato Santoro e Éder Sandoli. O primeiro CD da dupla, Alvorada, é, seguramente, uma das melhores surpresas de 2001 em seu estilo. Embora pouco conhecidos, nem Renato nem Éder estão começando suas carreiras musicais agora: cada um deles soma quase 15 anos de profissão, tocando na noite ou acompanhando nomes consagrados da MPB, como Tom Zé e Alceu Valença. O Duo Quase Acústico, por sua vez, foi criado há dez anos, mas nunca havia gravado. Quem se interessar em conhecê-lo, verá que o resultado da estréia é excelente. Antes de tudo, o que chama a atenção é o fato da parceria ser composta por dois ótimos compositores, instrumentistas, improvisadores e arranjadores. Num tempo em que a especialização numa só tarefa dita as regras de qualquer trabalho - inclusive, do musical -, o encontro de artistas tão completos, com domínio de todos os fundamentos de sua produção, é algo raro e impressionante. Musicalmente, o Duo Quase Acústico reflete a influência das três maiores escolas instrumentistas do País: a do choro, a da música nordestina e a da bossa nova. As melodias oscilam, mas, ritmicamente, seguem as duas escolas mais tradicionais, preferindo os caminhos do samba, do baião, da valsinha - exceto pela faixa-título, Alvorada, que é mais próxima de uma balada. As complexas harmonias empregadas, por sua vez, pendem para a bossa nova e seus desdobramentos mais modernos. A improvisação da dupla, livre e sofisticada, também vem do modelo consagrado pelos bossanovistas, de viés escancaradamente jazzístico. Muitos dos trabalhos instrumentais gravados no Brasil concentram-se em releituras do nosso vasto repertório. Isso é bom na medida em que revigora a sólida tradição brasileira, mas, por outro lado, costuma sacralizar demais os mestres do passado, criando um rígido mecanismo de comparações que desencoraja a criação de novos temas. O Duo Quase Acústico enfrentou essa dificuldade e, sem acanhamento, preencheu a maior parte de seu Alvorada com boas músicas de sua própria autoria. A elas se somaram, no disco, duas ousadas releituras de clássicos de Pixinguinha - as músicas Lamento e Vou Vivendo. É interessante notar nas peças do duo as diferenças entre suas personalidades musicais. As composições de Renato Santoro são mais contemplativas e ligadas à linhagem tradicional do choro. Dentre elas, destacam-se as belas Sozinha e Kiron. As melodias de Éder Sandoli, por sua vez, são mais agitadas e seguem os caminhos imprevisíveis trilhados por Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e companhia. Levam a sua assinatura as ótimas Fogueira, Baião de Zurich e Música na Cozinha - talvez, a melhor faixa do disco. Nas versões de Pixinguinha, a dupla conseguiu uma interessantíssima rearmonização para Vou Vivendo, e um arranjo original - embora um pouco carregado - para Lamento. De acordo com Éder, Pixinguinha foi o único compositor interpretado no disco por um motivo simples e curioso: apaixonados por choro, ele e Renato queriam gravar alguma coisa do gênero, mas, quando experimentavam tocar obras de outros autores ao lado das de Pixinguinha, sentiam que as primeiras "pareciam sumir". Ficaram só com o mestre. O maestro Cláudio Leal Ferreira, que escreveu o texto de apresentação do disco, chama a atenção para a qualidade de Renato e Éder como instrumentistas. Segundo ele, todas as faixas foram gravadas pelos dois músicos simultaneamente e os resultados obtidos são exatamente o que se ouve no disco, sem emendas, overdubbings ou qualquer maquiagem de estúdio. O melhor é que essa competência não se transformou em demonstrações virtuosísticas. Pelo contrário, os temas e os improvisos transbordam musicalidade, com melodias cristalinas, daquelas que podem ser cantadas ou assobiadas tranqüilamente. O disco Alvorada deve chegar às lojas especializadas no mês que vem, mas já pode ser encomendado pelo e-mail duoquaseacustico@ig.com.br. É difícil prever se a obra terá divulgação adequada, uma vez que é fruto de uma produção independente, mas é certo que reúne qualidades suficientes para consolidar a carreira da dupla e conquistar a exigente crítica musical.

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