Dulce Quental tira o pop da mesmice em novo álbum

O disco inédito de Dulce Quental é uma das duas ou três melhores notícias do ano na música brasileira. Ela não lançava um álbum desde o LP Dulce Quental, de 1988. Música inédita gravada por ela desde então, só Quando, faixa de abertura da sua compilação na série de CDs Para sempre, de 2001. No meio tempo, cuidou da prole e da composição. Agora, felizmente, Quando retorna com 11 novas canções em Beleza Roubada (Sony/Cafezinho Music).Apesar de ter sua produção-solo na década de 80 - além do LP já mencionado, Délica (1986) e Voz Azul (1988), nenhum dos três lançado em CD pela EMI - alinhada a uma certa new bossa que vicejava, Dulce sempre assinou algumas sutis inflexões blueseiras. A serena melancolia de seus versos e doce balanço a caminho do mar de suas melodias colocaram sua obra a salvo da descartabilidade do Sempre Livre, sua primeira aparição no front da música pop brasileira, a ?girls band? do sucesso Eu Sou Free. Se em seus primeiros LPs, Dulce já havia nos legado belezinhas como Tudo É mais e Não Atirem no Pianista, no seu período de recolhimento, ela acrescentou tabelinhas com Roberto Frejat (Pedra, Flor e Espinho) ou com o Cidade Negra (Cidade Partida). Esse diálogo com o BRock e seus primos sempre marcou a carreira de Dulce. Ela gravou Herbert Vianna, Engenheiros do Hawaii e Hojerizah. Em Beleza Roubada, além de Zélia Duncan, são parceiros Moska, Frejat e Thiago Trajano. No CD, porém, há um clima intensamente literário, como se ela tomasse seu capuccino no bistrô da Livraria da Travessa da Visconde de Pirajá com o intuito de fazer a música pop pensar e sair da mesmice. Isso faz com que haja ?participações especiais? do poeta ?beat? americano Allen Ginsberg e do recém-falecido escritor mineiro Fernando Sabino.Ginsberg é ouvido em Conferências sobre o Nada, dela com Frejat, recitando versos de Nota de Pé de Página para Uivo. Sabino é ouvido em O Escritor, num trecho do fonograma O Grande Mentecapto, composição de Francis Hime.Musicalmente, acompanhada por Vinicius Rosa (violão e guitarra), Renato Fonseca (teclados), Damien Seth (programação) e Sacha Amback (teclados, baixo e programação), Dulce atualiza o seu bossa?n?blues com discretos toques de eletrônica que ajudam o ouvinte a estabelecer os elos tanto de uma Bebel Gilberto quanto de uma Adriana Calcanhoto com o passado. Porque Dulce Quental, mesmo tendo optado por se manter em segundo plano durante toda a década de 90, de certa forma nunca deixou a boca de cena. Sua nova produção deve estimular pencas de novas cantoras século 21 afora.

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