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Duas reinvenções bem-sucedidas de Bach e Brahms

Concerto impecável da Osesp e do barítono alemão Stephan Genz, sob o comando de Richard Armstrong

João Marcos Coelho, Especial para O Estado

14 de novembro de 2016 | 10h52

Um lamento pela tragédia no âmago da vida cotidiana, em cujas espirais estamos todos enredados. A frase de Malcolm MacDonald em seu livro sobre Brahms (Zahar, 1993) define com extrema adequação o universo emocionalmente intenso no qual se movem não as quatro canções sérias, que receberam uma interpretação impecável da Osesp e do barítono alemão Stephan Genz, comandados pelo eficiente Richard Armstrong.

Brahms as escreveu durante as últimas semanas de vida de sua amada Clara Schumann, que teve um derrame em 26 de março de 1896. No dia 7 de maio, completou-as; treze dias depois ela morreria. Como no Réquiem Alemão (ouvido na mesma sala há pouco), o roteiro pinçado da Bíblia de Lutero inclui a fragilidade da vida humana, comparada à dos animais (a primeira tem por título "Pois o que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais"); a contemplação da injustiça (na segunda canção); e o poder transcendente do amor (na quarta).  Palavras atualíssimas permeiam as canções: "Vi as lágrimas dos oprimidos, que não tinham quem os consolasse; e a força estava do lado dos seus opressores, mas eles não tinham quem os consolasse"; e "mais felizes do que os mortos são aqueles que ainda estão por nascer, que ainda não viram o mal".

 

A ótima orquestração de Detlev Glanert acentua o caráter sombrio que raramente deixa entrever sonoridades mais impositivas. Os curtos prelúdios acoplados a cada canção também é engenhosa, assim como a refinada exploração dos registros graves por todos os naipes da orquestra. O Brahms iluminado por Glanert foi um destes momentos raros e memoráveis que levamos conosco vida afora. 

A orquestração de Arnold Schoenberg para o célebre prelúdio para órgão BWV 552 de Bach vai por outro caminho. Transforma a orquestra num cósmico órgão; a orquestração é propositadamente pesada para, como diz Schoenberg, "privilegiar a clareza no emaranhado das vozes".

Se a primeira parte foi emocionante, a segunda não ficou atrás. A sexta sinfonia de Vaughan Williams, escrita logo depois da II Guerra Mundial, é vista como retrato do conflito nos movimentos iniciais e concluindo com um longo pianíssimo que sugere uma paisagem desolada, o pós-guerra. Destaque para o solo de saxofone. Como lembra o regente da noite em texto no programa, o compositor citou Shakespeare a propósito do quarto movimento: "Somos feitos da matéria de que se fazem os sonhos, e nossa vida pequenina é cercada pelo sono".  Não estamos longe do clima das canções sérias de Brahms.

Um programa bem engendrado, performances acima da média tanto da orquestra como do solista e do regente - e a Sala São Paulo não estava cheia. Sinais da crise? Pena. Experiências musicais como as vividas nesta quinta-feira empalidecem em gravações. Nada substitui o concerto.

Cotação: ótimo.

 

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