Dori Caymmi está na cidade

Dori Caymmi está em São Paulo. Toca e canta, amanhã e sábado, no Sesc Pompéia. Veio promover o lançamento do CD Cinema - A Romantic Vision, lançado no Brasil, no ano passado, pela Atração Musical. É uma produção norte-americana, como têm sido os discos de Dori nos últimos 11 anos, tempo em que ele mora em Los Angeles. Cinema - A Romantic Vision foi indicado para o Grammy, na categoria jazz. Uma conquista: um músico brasileiro ser considerado bom a ponto de concorrer com jazzistas de lá, em pé de igualdade, sem ser mandado para aquela categoria um tanto demagógica do "jazz latino" - uma grande conquista. Não que importe muito. Sobre Grammy, aliás (e essa foi sua terceira indicação), Dori nem fala. Prefere outros assuntos - sua saudade brasileira, a tristeza com o rumo que tomou a música popular (pelo menos a de escala industrial), o amor pelos pais e irmãos. Contente ele está porque, desta vez, teve condições de bancar a vinda de sua banda - o grupo com o qual toca há anos, nos Estados Unidos, formado por músicos brasileiros e de lá: Jurim Moreira (bateria; o músico oficial do posto é Michael Shapiro, que tinha outro compromisso), Marcus Silva (teclados), Scott Mayo (saxofone) e John Leftwich (contrabaixo). À frente deles, Dori, sua grande voz, seu violão monumental. Diz que seu papel é segurar a "coisa brasileira", assegurar que o som soe como Brasil - pretensão, sempre alcançada, que herdou do pai, de Tom Jobim e que compartilha com a irmã, Nana, e com uns poucos músicos brasileiros, como Edu Lobo. "Deixo os jazzistas ´jazzearem´ um pouco, mas carrego tudo de volta para o Brasil", diz ele. DiscoCinema - A Romantic Vision, mesmo quase todo o repertório sendo internacional (das dez faixas, apenas uma, Manhã de Carnaval, de Luís Bonfá e Antônio Maria, é brasileira), consegue ter esse paladar - o que não se deve, apenas, à leitura bossanovista do tema de A Pantera Cor de Rosa, de Henry Mancini, mas à seleção do repertório, que aproxima distintos universos musicais, e ao sotaque do arranjador, impresso em cada acorde: The Shadow of Your Smile, composta por Johnny Mandel e Paul Francis Webster para o filme Adeus às Ilusões, torna-se uma canção de Dori Caymmi quando ele a canta.Novos discosMancini e Mandel são influências muito importantes na música de Dori, que pretende gravar um disco chamado, justamente, Influências, no qual prestará homenagens também aos mentores Jobim, David Grusin Quincy Jones, este último responsável por sua ida para os Estados Unidos e pela produção de seu primeiro disco gravado lá. Dori pretende gravar as bases com Abraham Laboriel e Paulinho da Costa, contrabaixista e percussionista, gente de seu time, e convidar os homenageados para escrever alguns arranjos. "Quem sabe até consigo convencer o Quincy Jones, que dá tudo para não ter de fazer nada", brinca Dori. Vai conseguir. Outro disco projetado chama-se Contemporâneos. Dori quer cantar os autores de sua geração: os que admira irrestritamente, como Edu Lobo e Chico Buarque, e alguns em quem vê talento de sobra, eventualmente desperdiçado, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Fala de cadeira: foi um dos arranjadores do primeiro disco de Caetano, Domingo, do fim dos anos 60. "Este vai ser um disco só de voz e violão, eu acho; quero pegar algumas canções desses que andam fazendo bobagem e meter uns acordes tortos, que é para eles se espantarem", ri. O que ele quer, mesmo, é revelar belezas eventualmente ocultas por vestimentas instrumentais equivocadas, maneira de cantar errada.Com Edu Lobo, pretende fazer, até o fim do ano, um show de duas vozes, dois violões. Um reecontro - eles começaram juntos, na turma dos melhores músicos da segunda geração da bossa nova. Edu é um dos poucos músicos a quem Dori dedica total admiração. É dos raros que não se venderam. Dori vê algo como uma "rollingstonização" da música que se faz em toda parte do mundo. Quer falar de perda de sotaque, de identidade, de apelo imediato com mãos abertas para colher glória e grana. "Eu sempre fui radical e quando via gente da minha geração fazendo certas concessões, aconselhava a que não fizesse; é um caminho sem volta, e pela fresta que se abre entra gente que não deveria entrar" - vocês sabem de quem ele está falando, pois não? A dificuldade de se fazer música a sério, cinema a sério, literatura a sério resulta dessas concessões, por mínimas que sejam, acredita - e não está fazendo queixa. Assume a parte que lhe cabe da culpa coletiva: "O que nós plantamos, colhemos", diz. Dori Caymmi. Amanhã e sábado, às 21h30. R$ 20 e R$ 10. Choperia do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700

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