Daniel Teixeira/Estadão
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Dori Caymmi e Mônica Salmaso celebram o Brasil ‘meio utópico’

Show traz canções inéditas de parceria com Paulo César Pinheiro e que estão em ‘Canto Sedutor’, gravado com cantora

Daniel Teixeira/Estadão
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Danilo Casaletti, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2022 | 05h00

“O meu contentamento sai de mim com voz de mágoa.” O verso, escrito por Paulo César Pinheiro e coberto pela melodia composta por Dori Caymmi, está em Voz de Mágoa, uma das três canções inéditas do álbum Canto Sedutor, que Dori e Mônica Salmaso acabam de lançar pela Biscoito Fino e que estreiam no palco neste fim de semana, no Sesc Pinheiros.

Desse verso, pode-se puxar o fio do disco, que tem 14 faixas, todas parcerias de Dori e Pinheiro. Esse filamento está tingido com as cores do Brasil. Não o verde e amarelo tão banalizado atualmente, mas dos tons de Guimarães Rosa, Pixinguinha, João Cabral de Melo Neto, Dorival Caymmi, Jorge Amado, Di Cavalcanti, Adonias Filho, Tom Jobim e João Gilberto.

A música de Dori se fez à feição desse Brasil. A de Pinheiro também. A parceria entre eles, que começou em 1969, é impregnada desse sotaque e de gêneros musicais como toada, baião, frevo e samba-canção. A referida voz da mágoa, então, não é de mero desgosto. É a que reclama por um país que parece perdido. E aí se realiza.

“Nossa música é de um Brasil menos progressista, sem essa coisa de industrialização. Até meio utópico. O Brasil para mim foi ter conhecido Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Monsueto. Ouvir meu pai dizer: ‘A coisa que mais me entristeceu foi chegar ao Rio de Janeiro em 1938 e Noel Rosa ter morrido em 1937’. Essa era a frustração dele”, conta Dori que, em agosto, completará 79 anos.

O compositor carioca ainda recorre a outros de sua geração, como Chico Buarque, Edu Lobo, Toninho Horta e João Bosco, o cinema e o teatro dos anos 1960 – Dori foi diretor musical do show Opinião – para falar do país que lhe seduz. 

“Eu amo o Brasil. Detesto o minerador, o cara que estraga rio, que mata índio. Tenho horror de político. Eles só maltrataram o País, que está todo arrebentado. Sou inimigo mortal da falta de cultura e da queima de livros em praça pública”, afirma.

Água do Rio Doce, outra inédita, aliás, nasceu da indignação causada pela tragédia de Mariana que sujou a água do rio que banha Minas Gerais e o Espírito Santo. A letra de Pinheiro diz “a água do rio tem medo de gente”.

Mônica Salmaso, de 51 anos, vê um lado político no que gravou em Canto Sedutor, ora sozinha, ora enredando sua voz ao canto maduro de Dori: “Nesse momento, cantar esse repertório virou uma atitude política, um posicionamento. Esse disco é o Brasil de várias misturas, que é potencialmente inacreditável, mas que deu mil passos para trás em todos os sentidos. Há um ódio à cultura e à beleza que é gritado por uma gente que eu me pergunto de onde surgiu. Isso atropela todos os nossos valores. Temos de tirar isso, de alguma maneira”. 

Foi de Mônica, aliás, a ideia do álbum. A coragem, segundo a cantora, apareceu depois que ela convidou o compositor para participar da série Ô de Casas, publicada em seu perfil no Instagram durante a pandemia. Nela, Mônica cantou, a distância, com inúmeros convidados. Só com Dori, foram quatro duetos. Na ocasião, fizeram juntos, inclusive, duas canções que estão nesse disco: À Toa e História Antiga

Dori delegou a Mônica a escolha do repertório do álbum, que traz ainda canções como Desenredo, Estrela da Terra e Velho Piano. Ela, por sua vez, fez uma pequena barganha: quis que Dori, além de tocar, cantasse com ela. “Tem o compositor que é uma escola, um fazedor de canções. Tem o violão que redesenhou o jeito de fazer os acordes, tem a voz absurda e a mão de arranjador”, enumera a cantora.

Ele devolve o elogio. “Foi a primeira vez que vi meu repertório cantado por uma pessoa com vontade de entender todo o meu processo criativo. Cantar meu trabalho com Paulo César Pinheiro, que é artesanal e de uma complexidade melódica extrema, é sair da zona de conforto. Já teve cantor que disse que preferia não cantar”, lembra Dori, com a sinceridade dos Caymmis.

 A direção musical é assinada por ambos em companhia do músico Teco Cardoso, marido de Mônica, e que trabalhou com Dori nos Estados Unidos, nos anos 1990. Com eles, estão os músicos Tiago Costa (piano), Sidiel Vieira (baixo acústico), Neymar Dias (viola caipira), Lulinha Alencar (acordeom), Bré Rosário (percussão) e o Duo Imaginário, formado por Adriana Holtz e Vana Bock (cellos). As cordas, escritas por Dori, foram executadas pela St. Petersburg Studio Orchestra.

Dori afirma ter outras tantas composições inéditas com Pinheiro, a quem ele e outros amigos tratam de Paulinho. De 2008 para cá, eles fizeram cerca de 80 canções. Mônica deixa um alerta. “Intérpretes, corram, peçam!”

O compositor ainda trabalha em outros dois álbuns com previsão de lançamento para este ano. Um deles é Sonetos Sentimentais para violão e orquestra, com poemas escritos por Pinheiro. Outro, um songbook do Selo Sesc que trará um livro e um CD para registrar o modo de Dori tocar violão.

Mônica excursiona, ao lado do pianista André Mehmari, com um show em que canta Milton Nascimento – já registrado em disco que esbarrou em imbróglios de direitos autorais. Ela ainda é cotada para fazer uma turnê ao lado de Chico Buarque – que anunciou a volta aos palcos para este ano – algo que ela ainda não confirma.

Além de um álbum primoroso, Canto Sedutor, com a sensibilidade de Mônica em privilegiar a parceria Dori/Pinheiro, mostra que ambos seguem o propósito que os uniu e que nem o tempo e tampouco essa “gente” capaz de assustar até a água tiveram força para desviar.

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