Dona Neuma: matriarca do samba carioca

D. Neuma, grande dama da Estação Primeira de Mangueira, matriarca do samba carioca, uma das mais importantes personalidade da cultura popular, referência sentimental das tradições culturais brasileiras. Aqueles que dividiram a sua intimidade são unânimes em afirmar que ela era dona de uma personalidade irreverente, que fazia uso demasiado de palavrões. "Uma espécie de Leila Diniz do Samba", diz a atual presidente do Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro, Marília Barboza. Com a autoridade de ser biógrafa da Mangueira, Marília escreveu os livros Alvorada, um Tributo a Carlos Cachaça, Fala Mangueira e Cartola dos Tempos Idos. Como diretora do departamento cultural da verde e rosa desde 1976, Marília conviveu intensamente com D. Neuma. "Ela era uma mulher de uma inteligência extraordinária embora com pouca escolaridade. Nos anos 50, tinha uma escola pública na Mangueira, cujo índice de inadiplência era muito alto. Ao tomar conhecimento disto, D. Neuma tomou a iniciativa de levar alguns alunos para a sua casa e pôs-se a escrever inúmeros palavrões. Entre risos, eles leram e D. Neuma provou que os alunos sabiam ler. O problema era que os textos eram inadequados, distanciados de suas realidades. Conclusão digna de um Paulo Freire". Mas atrás desta mulher extrovertida existia um comportamento puritano, assegura Marília. Ainda muito jovem, D. Neuma ficou viúva de um homem só. Durante toda a sua vida guardou a memória deste marido, jamais casou-se ou manteve relacionamentos amorosos, preocupando-se em ser um exemplo moral para as filhas". Tempos depois, foi a vez de Marília ficar viúva, e escutou de D. Neuma o sábio conselho que jamais esqueceria : "Marília, não faça o que eu fiz, não é pelo sexo, é pelo companheiro para esquentar o pé", recorda-se Marília. Nascida e criada na Mangueira, dona de brilho próprio, esta guerreira fez o seu caminho, síntese do morro e do asfalto. Filha de Saturnino, um dos fundadores da Estação Primeira. O escritor,jornalista e pesquisador Ricardo Cravo Albin recorda-se de D. Neuma, em meados dos anos 60, participando do Conselho Superior das Escolas de Samba, formado por intelectuais e personalidades do samba para discutirem a organização das escolas cariocas, como Cartola, Silas de Oliveira. Neuma, além do mito, foi um símbolo da resistência cultural. Lembro-me que ela gostava de ser chamada de nobre conselheira", recorda-se Cravo Albin.

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