Dona Ivone Lara recebe Prêmio Shell com festa no Rio

Poucos famosos foram ao Canecão na noitede terça-feira assistir ao show de Dona Ivone Lara, homenageadado 22.º Prêmio Shell de Música. Quem faltou perdeu uma grandefesta. Na platéia lotada, Beth Carvalho, Nélson Sargento, SérgioCabral, Elton Medeiros (o homenageado de 2001) se misturavam asambistas anônimos, todos prontos a aplaudir a dama do samba,que contradizia seus 81 anos com a voz cristalina (que encantouo compositor Villa-Lobos nos anos 30) e seu gingado.O show, apresentado por Lucinha Lins, começou com oJongo da Serrinha, do morro de Madureira, na zona norte do Rio,onde Dona Ivone Lara viveu desde a infância e ajudou a criar aescola de samba Império Serrano. Ela chegou sem sapatos,acompanhando as crianças nos passos do ritmo que precedeu osamba, como se tivesse a idade delas.Logo veio seu parceiro e letrista, Delcio Carvalho, que,emocionado, demorou a encontrar o tom de Alvorecer, mas fezbonito. Leci Brandão pediu a bênção da pioneira, a primeiramulher a ter samba-enredo cantado por uma grande escola (CincoBailes da História do Rio, em 1966) e logo depois vieramArlindo Cruz e Sombrinha, cantando Enredo do Meu Samba,sucesso dos anos 80, que foi até abertura de novela na RedeGlobo.O melhor do show foi Martinho da Vila cantando o sambaque fez em homenagem a Dona Ivone Lara e emendando com SonhoMeu. Ela respondeu com Mas Quem Disse Que Eu te Esqueço,hit onipresente nas rodas de samba cariocas. Aí, o Canecão virouum grande terreiro, um pagode de subúrbio como aqueles em que acompositora aprendeu a cantar, tocar cavaquinho e a fazer samba.Ao receber o troféu das mãos do presidente da Shell, AldoCastelli, Dona Ivone disse que, com essa homenagem, podia morrertranqüila, mas avisou que isso não vai acontecer tão cedo. Afesta acabou com o Jongo da Serrinha e todos os sambistascantando Alguém me Avisou.Dona Ivone Lara é a segunda mulher a receber o PrêmioShell de Música Popular, que todo ano homenageia um artista e jáfoi para Rita Lee, Tom Jobim, Milton Nascimento, Caetano Veloso,Gilberto Gil, Chico Buarque e boa parte da constelação decompositores brasileiros. Aos 81 anos, Dona Ivone faz música hápelo menos sete décadas, mas só se profissionalizou nos anos 70,pouco antes de se aposentar como enfermeira e assistente social.Até então, trabalhava com a psiquiatra Nize da Silveira, usandoa música como terapia para doentes mentais.Mesmo com essa vida paralela, Dona Ivone Lara é autorade pelo menos uma dezena de sucessos, desde o primeiro samba,Tiê, composto aos 12 anos. Com um jeito meigo, quebroubarreiras e mandou seu recado. Sem levantar bandeiras feministas, foi a primeira mulher admitida numa ala de compositores deescola de samba, o Império Serrano. Não faz política, mas compôsSorriso Negro, verdadeiro hino da dignidade racial. Generosa, estendeu o Prêmio Shell a todos os sambistas. "Essashomenagens fazem o samba ganhar nova força", agradeceu ela, aoencerrar o show.

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