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Dona Canô, a senhora da festa

Mãe de Maria Bethânia e de Caetano Veloso, ela faria 106 anos em setembro

Lauro Lisboa Garcia, especial para O Estado de S. Paulo,

25 de dezembro de 2012 | 11h08

Pelo Brasil afora e em parte do mundo, Dona Canô ficou célebre como a mãe da cantora Maria Bethânia, do compositor e cantor Caetano Veloso e da escritora Mabel Velloso. Patrimônio baiano de Santo Amaro da Purificação, onde nasceu em 16/9/1907, lá, porém, a situação se invertia: eles é que eram conhecidos como os filhos da carismática e estimada Claudionor Viana Teles Velloso.

 

Canô sempre simbolizou alegria e viveu rodeada de muita gente. Quando se casou com José Teles Velloso - morto em 13 de dezembro de 1983, aos 82 anos -, que não gostava de festas, foi morar com mais de 20 pessoas na casa da família dele. Em Santo Amaro, constantemente recebeu muita gente em sua casa branca de janelas e portas azuis, onde atendia visitantes de toda espécie e origem, curiosos, fãs de seus filhos e dela também, com a mesma simpatia com que reunia os inúmeros amigos em festas embaladas por boa música, histórias, memórias, serestas na varanda, carurus de 5 mil quiabos e outros atrativos.

 

Era ali também o ponto de partida das comemorações da cidade e as famosas novenas do 2 de fevereiro, realizadas a cada janeiro e celebradas até em canção. "Não tenho escolha careta/ Vou descartar/ Quem não rezou a novena de Dona Canô...", canta Bethânia em Reconvexo, do mano Caetano.

 

Festas comemorativas de seu aniversário, para os amigos, não bastavam o dia 16 de setembro. Era todo mês no dia 16, com participação de familiares, amigos da cidade, incluindo os do coral Miguel Lima, em que Dona Canô cantava. Dona de voz doce e afinada, ela também teve papel importante na formação musical dos filhos, com seu rico repertório que influenciou Caetano e Bethânia.

 

O belo documentário Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda, de Andrucha Waddington, teve grande parte rodado em torno da seresta na varanda de Dona Canô, onde ela canta com os filhos e diz frases como "música velha é que é bonita. Essas de hoje meu filho..." E faz uma careta de desaprovação, acompanhada de risos dos presentes. Em grande parte, o eixo do filme, aliás, se transfere para a mãe de Bethânia, que dedicou a ela o show de 2010, com o significativo título Amor, Festa, Devoção. "Para minha mãe. Meu canto é teu, minha senhora", escreveu a cantora na dedicatória do DVD.

 

Um dos episódios mais marcantes das comemorações do centenário de Dona Canô, em 2007, foi quando Bethânia cantou Romaria (Renato Teixeira) na missa celebrada na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Purificação, em Santo Amaro. Devota de Nossa Senhora Aparecida, Canô recebeu de presente a visita de uma réplica da imagem da santa, levada de Aparecida do Norte (São Paulo) para lá especialmente em sua homenagem.

 

Quando o andor com a imagem adentrava a igreja, Bethânia, acompanhada apenas do violão de Jaime Alem, emocionou a todos ao cantar, acompanhada em coro pelos fiéis, os versos "Sou caipira Pirapora/ Nossa Senhora de Aparecida/ Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida..." O choro cortou a voz de Bethânia e momentos depois Dona Canô teve ser levada para fora, antes de terminar a missa, tamanha a emoção.

 

Por influência dela, sua devoção também foi registrada em disco, sempre com apoio de Caetano e Bethânia, desde o compacto com dois hinos a Nossa Senhora da Purificação (compostos por Carlos Sepúlveda e Caetano Veloso), lançado em 1980. A parte musical da novena também foi gravada em CD, com produção de Roberto San'Ana e assistência de um dos netos de Canô, o também músico e compositor J. Velloso. Com Jaime Alem, Bethânia também produziu outro CD, Cânticos, Preces, Súplicas, que tem participação de sua mãe e de Gilberto Gil cantando.

 

Sobre a arte de viver bem, a matriarca disse certa vez numa entrevista quando estava prestes a completar 103 anos: "Se há que tenho orgulho, isso é meu orgulho de dizer. Não acredito muito em orgulho não, acho uma palavra muito pesada. Mas se há, posso dizer que sou orgulhosa." Sua recomendação para o bem-estar permanente era não levar tudo "na ponta de faca": "Não precisa a pessoa ser boa, não, basta ser comedida".

 

Essa lição de bem-estar constante motivou o escritor Antonio Guerreiro, baiano de Jacobina, a escrever o livro Canô Velloso - Lembranças do Saber Viver, em parceria com Arthur de Assis, que morreu antes de o volume com mais de 200 páginas ser editado em 2008, quando ela fez 101 anos. Escrito a partir de longas entrevistas com a matriarca dos Velloso no ano de seu centenário, o livro, como disse o autor, "não é uma biografia, mas um registro da memória de Dona Canô sobre os assuntos que tenham feito parte das suas rotinas e vivências ao longo de 100 anos".

 

Guerreiro, como todos que puderam testemunhar, confirmou que Canô teve "uma agenda sempre cheia, uma vitalidade impressionante e uma atenção constante com tudo o que acontecia ao seu redor", além do bom humor permanente. Pode-se dizer, em linguagem popular, que Canô, foi uma das maiores "agitadoras" da vida social de sua cidade, e o livro de Guerreiro, dividido por temas em sete capítulos, se aprofundam nas memórias dessas atividades, episódios marcantes das transformações do Recôncavo e de Santo Amaro, à qual sempre foi dedicada e onde tem até teatro com seu nome. Mais e mais histórias e memórias de sua família e de seus costumes estão registradas em outro livro, O Sal É Um Dom - Receitas de Mãe Canô, idealizado e produzido por Mabel Velloso.

 

Uma de suas famosas frases, "Caetano, venha ver aquele preto que você gosta", virou verso da canção Dona Canô, samba-reggae de Neguinho do Samba, sucesso na voz de Daniela Mercury. Ela disse isso ao filho quando Gilberto Gil apareceu certa vez na televisão em início de carreira na década de 1960.

 

"Lembro com muito gosto o modo como ela se referia a ele (pelo menos ela o fez uma vez e isso ficou marcado muito fundo) dizendo: 'Caetano, venha ver o preto que você gosta'. Isso de dizer 'o preto', sorrindo ternamente como ela o fazia (ou fez), tinha - teve, tem - um sabor esquisito que intensificava o encanto da arte e da personalidade do moço no vídeo. Era como se se somasse àquilo que eu via e ouvia uma outra graça, ou como se a confirmação da realidade daquela pessoa, dando-se assim na forma de uma bênção, intensificasse sua beleza. Eu sentia alegria por Gil existir, por ele ser preto, por ele ser ele - e por minha mãe saudar tudo isso de forma tão direta e tão transcendente. Era evidentemente um grande acontecimento a aparição dessa pessoa - eu via que se tratava desde já um grande entre os grandes - e minha mãe festejava comigo a descoberta", escreveu Caetano no livro Verdade Tropical.

 

Uma das maiores entidades baianas de seu tempo, Dona Canô teve seis filhos com Seu Zeca, e duas filhas adotivas, Irene e Nicinha, morta em 2011 aos 83 anos. Eles sempre foram motivo de alegria para ela e vice-versa. Em 2009, porém, ela não se furtou a puxar a orelha do mais famoso deles em público ao envolver-se numa polêmica com Caetano e o então Presidente Lula. Ao apoiar a candidatura de Marina Silva à Presidência da República, o compositor comentou em entrevista ao Estadão: "Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem."

 

Dona Canô veio a público pedir desculpas a Lula pela frase do filho. "Lula não merece isso. Quero muito bem a ele. Foi uma ofensa sem necessidade. Caetano não tinha que dizer aquilo. Vota em Lula se quiser, não precisa ofender nem procurar confusão." O ex-presidente aceitou as desculpas com um telefonema: "Não fique chateada, preocupada, porque gosto muito da senhora e gosto do Caetano também. Está tudo bem, essas coisas acontecem."

 

Mabel, Clara e Irene se revezavam para dar assistência a ela com visitas constantes. Caetano e Bethânia sempre que podiam estavam lá. Rodrigo passou a morar com ela nos últimos anos. "A gente brinca aqui dizendo que o único defeito de minha mãe é que ela não gosta de uma cervejinha. A história dela é com o vinho do Porto", disse Rodrigo, secretário de Cultura da cidade, às vésperas da festa de 105 anos da mãe. "Vivo acompanhada demais.

 

Nem me deixam respirar", disse ela em 2010, com a ternura e o bom humor de sempre. Quando completou 95 anos, Caetano disse: "Desejo que ela permaneça sempre maravilhosa." E assim se deu aos olhos do Brasil.

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