Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Don L faz parte de geração do rap mais aberta à mídia

Rapper de Fortaleza abre apresentação de Emicida com músicas de sua primeira mixtape solo, ‘Caro Vapor – Vida e Veneno'

Paula Carvalho, O Estado de S. Paulo

24 de janeiro de 2014 | 03h00

O rap brasileiro, mais do que consolidado, vive há algum tempo um conflito de personalidade. Até o início dos anos 2000, a maior parte dos MCs sustentava uma espécie de acordo de princípios – sintetizado em bordões como “rap é compromisso”, de Sabotage – que traduziam posições contra a cultura de consumo e em favor da comunidade negra e da periferia. Outros grupos, surgidos no fim dos anos 2000, traçaram formatos diferentes para seus trabalhos – com maior abertura à mídia, por exemplo.

Gabriel Linhares Rocha, vulgo Don L, começou a se formar no rap com o grupo mais antigo, que chama de “militante”. Em Fortaleza, onde viveu até o fim do ano passado, a cena do hip-hop era bastante ligada ao movimento negro, com leituras de Malcolm X e formação dos MCs. Foi em 2005, quando criou com Nego Gallo, Junior D, Flip-Jay e Preto B o grupo Costa a Costa, que Don L passou a integrar um lado mais polêmico do rap.

Ele agora apresenta a sua primeira mixtape solo, Caro Vapor – Vida e Veneno de Don L, lançada em outubro, abrindo hoje o show de Emicida, no Cine Joia.

Antes da carreira solo, o Costa a Costa de Don mexeu com bases do hip-hop ao abordar a vida na periferia de Fortaleza de um modo mais cru, falando abertamente de prostituição e de tráfico, e com um choque também sonoro: a mistura de rimas com reggaeton, mambo e salsa. “Na época, a gente quis quebrar um pouco da patrulha do rap. Apesar de eu ter vindo disso (do grupo militante), fiz esse projeto mais ‘gangsta’, e a experiência com a militância me ajudou a fazer rimas sem parecer uma coisa malfeita”, conta Don em entrevista ao Estado. “A gente dizia que tinha que ganhar grana mesmo e que não queríamos tratar a realidade com essa simplicidade meio burra de ‘manos’ e ‘playboys’.”

 

Depois de lançar a mixtape Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa, o grupo fez shows por várias capitais, até que começou a ser estigmatizado pela mídia (por trazer muita violência) e pela própria cena do rap. “Só a gente, praticamente, fazia aquele tipo de som. Show de rap costumava ser ‘coisa de homem’, com um monte de ‘manos’ mal encarados. A gente queria que as minas colassem também, que os caras fossem tomar uns drinks, dançar”, diz.

Don considera que foi pelo fato de estarem no Nordeste, e ainda em um formato “muito bruto”, que o Costa a Costa tenha permanecido underground (embora cultuado no mundo do hip-hop). Com o novo trabalho, o rapper de 33 anos diz estar mais amadurecido, mas ainda segue apurado nas rimas. “É diferente escrever poesia e escrever rap. É sempre uma briga entre o sentido e o flow. Às vezes, uma palavra se encaixaria melhor na letra, mas eu prefiro trocar por outra pra manter o ritmo”, explica. “Por isso, também a minha rima é mais fonética (ou seja, rima os sons que produz, e não só as terminações das palavras), o que dá mais suingue às músicas.”

Don também é produtor. Na mixtape, reuniu beats de Alexandre Basa, Billy Gringo, Stereodubs, Papatinho, Luiz Café e Casp Beats, além dos próprios. Nego Gallo, Flora Matos, Izabel Shamylla, Terra Preta e Felipe Cazaux participam nas vozes.

A mixtape alterna momentos de romance, sensualidade e gozo com crítica e mal-estar. “Gosto de dizer que faço letras que aceitam a complexidade das coisas”, comenta o rapper. “Em Cafetina Seu Mundo, uma das músicas que mais se parecem comigo, ao mesmo tempo em que critico, eu evoco a grana como se fosse uma deusa. Faço diferente de certas condenações hipócritas, que veem questões do lado de fora”, incita, provocando a discussão com o rap mais ativista.

A opinião de Don sobre o Brasil é quase cética. Ele sugere a ideia de um oásis no deserto como a forma de conseguir ser feliz no País em meio a tanta desigualdade. “E não tem fim, eu vou morrer e as mudanças não vão acontecer. Ao mesmo tempo, penso: não vou deixar de aproveitar a vida. Há sempre o lado crítico e o hedonista”, pondera.

Ultimamente, uma mudança de atitude pode ser observada entre MCs de várias gerações, provocando discussões entre os fãs. Neste mês, o rapper Slim Rimografia sofreu duras repreensões após sua equipe anunciar pelo Facebook que ele estaria no Big Brother Brasil 14. “Atitude vendida”, “desnecessária” e “de plástico” foram alguns dos comentários no post, na mesma linha de condenações que Edi Rock sofreu por participar do Caldeirão do Huck e do Esquenta!, da Rede Globo, em outubro passado, ou dos juízos sobre Emicida participar do show com artistas brasileiros no sorteio da Copa em dezembro, organizado pela Fifa.

O integrante dos Racionais MC’s disse à TV Rap Nacional, em resposta aos que acompanham seu trabalho, que apostou em “representar o rap” com a aparição na emissora. Seus parceiros Mano Brown e Ice Blue também já sinalizaram que estão mais abertos a negociações com marcas e grandes eventos, desde que isso represente benefícios para a “família”. Com um pé dentro e outro fora do sistema, aos poucos a cara do rap nos anos 2010 vai se mostrando.

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