Domenico Lancellotti lança disco 'Serra dos Órgãos', feito entre ruídos e silêncios

Domenico Lancellotti lança disco 'Serra dos Órgãos', feito entre ruídos e silêncios

É o segundo álbum solo da carreira do músico, realizado entre Londres e um refúgio bucólico no Rio

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2017 | 06h02

A obra musical de Domenico Lancellotti é impregnada de imagens. Essa relação já era declaradamente aberta em seu primeiro disco solo, a começar pelo título, Cine Privê, de 2011. Talvez isso venha de seu fascínio pelo cinema. Seis anos depois, o segundo disco solo, o recém-lançado Serra dos Órgãos, reforça essa conexão, mas numa outra frequência. Aqui, as músicas ‘imagéticas’ – ou as imagens ‘musicadas’ – remetem à natureza, ao onírico e, em alguns momentos, ao “se voltar mesmo para dentro”, como ele canta em Voltar-se, primeira faixa do álbum. “Então sorrir é voltar-se pra dentro/Tocar é voltar-se também”, diz um trecho da canção assinada por Domenico. 

Apesar de se alinharem dentro de uma unidade proposta pelo músico, as 14 canções reunidas no novo trabalho nasceram praticamente em dois momentos – e cenários – distintos. O primeiro remete a Londres. O cantor, compositor e multi-instrumentista carioca recebeu convite para participar de uma ocupação artística na capital inglesa durante a Olimpíada 2012. O projeto incentivava a integração com algum artista local. E Domenico realizou o sonho de trabalhar com o músico e arranjador irlandês Sean O’Hagan. “Sean é um músico extraordinário, faz arranjos para cordas, gosta de trabalhar com essa textura”, diz, ao Estado, Domenico, que também é produtor do disco. 

Antes mesmo de embarcar, Domenico enviou alguns temas que tinha feito no violão para Sean, que logo providenciou os arranjos de cordas. Eles gravaram nove músicas, que entraram na trilha sonora do projeto final de Domenico, e alguns temas receberam letra já no Brasil. Tudo Ao Redor tem letra do amigo Moreno Veloso, que também é intérprete dela no disco. A música transporta, inconscientemente, à atmosfera de canções de Caetano, pai de Moreno. Coisa de genética. “Moreno escutou e teve a ideia de letra. Tinha o desafio de acrescentar a voz dele com a base já mixada com cordas e com tudo. Foi um negócio radical”, conta Domenico.

O também amigo Kassin o ajudou em Insatiable e Sean fez a letra de Logo e canta na faixa, parceria dele com Domenico. “O que admiro no Sean é que ele trabalha com quarteto de cordas para ser quarteto de cordas, não é para parecer uma formação maior. E o som que vem do quarteto é um negócio que parece que vem do chão, é uma vibração muito interessante.” A marca dos arranjos de Sean – que também assina como coprodutor do disco – está ainda em faixas como a instrumental The Good Is a Big God (Domenico) – com sutis intervenções vocais de Nina Miranda –, Tudo Ao Redor (Moreno e Domenico), e as também instrumentais Árvores e Serra dos Órgãos (ambas de Domenico). 

Refúgio. O álbum nasceu em meio à rotina atribulada de uma cidade grande, mas também dos silêncios no meio do mato. Domenico e a mulher buscaram tranquilidade na Serra dos Órgãos, grande reserva da Mata Atlântica no Rio, onde alugaram uma casa. “Esse nome sempre me intrigou, desde criança. Eu associava com órgãos mesmo, depois soube que vem daqueles órgãos de igreja antigos, acharam parecidos com aqueles desenhos das montanhas (da região)”, explica o músico. O local de seu refúgio dá título ao novo trabalho, e pequenos detalhes da rotina menos acelerada norteiam algumas canções. “Gosto muito do mato e, em determinado momento, a gente alugou aquela casa e subia na sexta-feira, esquecia telefone, internet, e ficava lá numa cabana, levava o violão e era muito bom, muitas coisas vieram dali, ideias de música.”

Então, esse isolamento foi pensado por causa do trabalho? “Estou sempre pensando no trabalho, na verdade. Estou sempre atento. Aí eu já tinha aquelas músicas gravadas e, paralelamente, eu estava trabalhando na produção de um disco do Danilo Caymmi, só com músicas de Dorival Caymmi, o Don Don. Eu tinha sensação que só o conjunto dessas músicas que eu tinha feito em Londres era muito monocromático, não ia me representar. Queria que tivessem outras coisas também para contrapor àquele som”, responde.

Da calmaria, surgiram composições como Pare de Correr, de Pedro Sá e Domenico, inspirada no período em que o músico e sua mulher conviveram com a família Sá na Serra – e Tetê, mãe de Pedro Sá, pedia ao agitado neto mais momentos de contemplação. “Gosto de pensar em disco como se fosse um filme.” No caso de Serra dos Órgãos, um filme com tons policromáticos. Como Domenico queria.

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