Dom Salvador reencontra hoje público de SP

Dom Salvador conta que foi a passeio a Nova York, no início dos anos 70. Não pretendia ficar. Era empregado da gravadora Odeon e participava de sessões de estúdio que lhe eram designadas. "Gravava praticamente todos os dias", conta. Adorava ir a Nova York porque a cidade lhe proporcionava ver concertos de grandes músicos. Viu (e tocou com) diferentes gerações: Duke Ellington, Count Basie, McCoy Tyner, Herbie Hancock. Resolveu então estabelecer-se na cidade. O show de hoje na última noite do Chivas Jazz Festival marca seu reencontro com os palcos brasileiros, que não freqüenta há 30 anos, desde que se foi de vez. No disco Dwitza, celebrado álbum de Ed Motta, a primeira faixa chama-se Um Dom pra Salvador, homenagem em ritmo de scat, piano rhodes, baixo, bateria, flugelhorn, sax e bombardino de um jovem discípulo ao mestre distante. Como a influência de Dom Salvador pode ter atravessado o tempo e a distância fonográfica? Se considerarmos que só recentemente, por iniciativa do músico Charles Gavin, baterista dos Titãs, foi reeditado um dos álbuns clássicos do pianista, é um mistério e uma bênção a permanência da música de Salvador. "No começo, foi difícil a vida em Nova York. Eu tive grande apoio do Dom (Dom Um Romão, outro brasileiro que viveu um longo auto-exílio) e da Flora (Purim), com quem ele era casado na época. Eles tinham sido os responsáveis pela minha ida para o Rio de Janeiro, onde trabalhei no Beco das Garrafas. Vivi na casa deles quase um ano", conta o pianista. Em Nova York, levou 7 anos para conseguir o visto de trabalho. Depois, levou a família. Dom Salvador tem dois filhos, nenhum deles músico. A filha é socióloga e o filho é psicólogo. "Estudaram música um pouquinho, mas acabaram fazendo outra coisa", diz ele, que andou por São Paulo e Rio de Janeiro esta semana espantado com a repercussão de seu retorno. Dom Salvador estudou piano no Conservatório Carlos Gomes, em Campinas. Começou a estudar aos 9 anos. As influências da música brasileira vinham da família. "Meu irmão colecionava discos de 78 RPM do Pixinguinha. Cresci ouvindo choros. Foi como um sonho quando me chamaram para gravar com ele, fazia muito tempo que ele não gravava. A produção era do Hermínio Belo de Carvalho e os arranjos eram de Orlando Silveira e do próprio Pixinguinha, incluindo o arranjo original de Carinhoso." Salvador apresenta-se hoje acompanhado dos brasileiros Duduka da Fonseca (bateria) e Rogério Botter Maio (contrabaixo acústico), além do saxofonista americano Dick Oatts (também flautista). Fechando a noite, é a vez do Arthur Blythe Trio, que tem o saxofonista Blythe e uma formação insólita: tuba (de Bob Stewart) e bateria (Cecil Brooks). Arthur Blythe, de 62 anos, é um músico cuja carreira ficou marcada pela capacidade de oscilar do mais ortodoxo bebop à experimentação pura.

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