Dois veteranos da bossa nova regravam sambas antigos

Dois bossa-novistas de primeira hora estão com discos novos que visitam um repertório fora da seara que freqüentam há mais de 40 anos. São regravações de sambas antigos (ou nem tanto), que o mundo todo gosta de ouvir, mas não têm boas gravações recentes. Cada um a seu modo, preenche lacunas. Amendoeira é o segundo disco do cantor Bebeto Castilho, em quase 50 anos de carreira. Para quem não liga o nome à pessoa, ele é o baixista e flautista do lendário Tamba Trio e seu CD é produzido pelo compositor Marcelo Camelo, do Los Hermanos, fã e sobrinho-neto dele. Lua do Arpoador também é um segundo disco, da cantora Leny Andrade com o violonista Romero Lubambo, reeditando a experiência que deu certo nos anos 90.Bebeto é um carioca da Tijuca que cresceu ouvindo os sambas do Salgueiro. Nos anos 60, juntou-se ao pianista Luiz Eça e ao baterista Hélcio Milito no Tamba Trio, que revolucionou a música brasileira. Cantor bissexto, só gravou um disco, em 1976, que só teve reedição na Inglaterra, pelo selo What Music. Foi ouvindo este elepê que Marcelo Camelo decidiu produzir Amendoeira. "Eu queria ouvi-lo cantar de novo e montamos o repertório sem pressa, sem cobrança de gravadoras", conta."Escolhi o que sempre gostei de cantar, chamei o Laércio de Freitas para os arranjos e aí está", acrescenta Bebeto com simplicidade, confessando que não sabia que alguns dos sambas, como A Vizinha do Lado, Sabiá de Mangueira, Infidelidade, Minha Palhoça e Pode Ser, são hits entre os jovens que lotam bares e rodas de samba do Rio, embora todos tenham sido compostos há mais de meio século. "As outras músicas foram chegando aos poucos. Gazela é antiga e Amendoeira foi feita pelo Marcelo para o disco."O que encanta em Bebeto é a simplicidade e a riqueza de suas divisões ou, como diz Caetano Veloso no texto de apresentação, a "total ausência de ansiedade, desdramatização absoluta sem perda da poeticidade, imaculada naturalidade no trato com as notas musicais". O cantor não esconde de onde tirou essas qualidades. "João Gilberto sempre disse que é preciso estar atento à música e à letra, para não desencontrar uma da outra", conta Bebeto, que evitou ligar o disco ao Tamba Trio. "Foi um momento importante porque juntou três pessoas de formação diferente numa quarta coisa, sem que ninguém renunciasse a suas influências. Mas é passado. Depois do Tamba fiz muita coisa, nunca parei."Ele pensa num show com esse repertório, mas depois da Copa. Reunir a trupe não será difícil. "Estou sempre em contato com essas pessoas e por isso as chamei para gravar. Toco com a Thalma de Freitas e o pai dela, Laércio, e conhecia a Nina Becker da Orquestra Imperial. Já o Wilson das Neves é amigo de muita estrada", enumera. Camelo conta que a gravação foi rápida até pela experiência que os músicos têm de tocar juntos e de estúdio. Ele mesmo só participou cantando de uma faixa, Porta de Cinema, e acha que criou o disco que queria ouvir. "Não sei como o Bebeto me influenciou, isso nunca é explícito. Mais que na forma de tocar ou cantar, a influência vem no afeto, nos toques e na convivência."A convivência é a chave de Lua do Arpoador, em que Leny Andrade e Romero Lubambo cantam sambas mais recentes (a maioria dos anos 70 para cá), que andam sumidos das noites cariocas. Eles gravaram no fim do ano passado, quando ela estava em Nova York (ele vive em New Jersey, que fica ao lado), devido aos muitos compromissos na terra do Tio Sam. "É uma delícia porque a gente se entende perfeitamente. Escolhi o repertório e os arranjos surgiram no estúdio, enquanto a gente ia gravando", conta Leny.Algumas músicas, como Lua do Arpoador (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro) e No Pedaço (Moacyr Luz e Sérgio Natureza) foram presentes dos autores e outras, como Influência do Jazz e Triste, tinham gravações antigas da própria Leny. "Com o violão do Romero fica outra coisa", avisa ela. "Aqui Oh! é paixão antiga e eu não conheço outra boa gravação a não ser a do próprio Toninho Horta. O mesmo acontece com Desenredo, rara parceria do Ivan (Lins) e do Gonzaguinha, com uma ironia que vale até hoje."Em comum ambos os discos têm a faixa Beijo Distraído, do auge da bossa nova. Enquanto Bebeto canta como se as idas e vindas da melodia fossem fáceis, Leny valoriza a interpretação. E, se ele deixa os improvisos para seus companheiros de estúdio, Leny faz sua voz funcionar como um músico a mais, afinadíssima com o pernambucano Lubambo, que vive nos Estados Unidos há décadas, mas mantém intacto seu suingue brasileiro. Um show com Leny e Romero ainda demora devido a suas agendas. Mas Lua do Arpoador e Amendoeira estão aí para quem quiser comparar os caminhos que a bossa nova continua a abrir.

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