Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Dois pianos poderosos numa noite memorável

Na Sala São Paulo, os francesas Eric Le Sage e Frank Braley mostraram repertório atraente e interação íntima

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

21 Maio 2015 | 04h00

CRÍTICA: ÓTIMO - A exuberante sonata de Mozart recebeu leitura arrebatadora

Cabe ao virador de páginas atuar com o máximo de sobriedade. Idealmente, deve ser invisível. A tarefa é, em geral, designada a estudantes de música. Mas a dupla de viradores dos pianistas franceses Eric Le Sage e Frank Braley falhou feio: fez de tudo para aparecer. Os repetidos erros os transformaram em atrações involuntárias na noite de anteontem na Sala São Paulo. Provocaram a ira, felizmente contida, restrita a uma ou outra reação intempestiva dos incomodados pianistas para correção de erros. O público ficou aflito ao perceber tamanho “descompasso”.

Ainda bem que tudo acabou bem. O repertório para dois pianos é gênero específico. Dois poderosos instrumentos lado a lado, cada um deles capaz de sozinho emular uma orquestra inteira... Não é fácil domá-los de modo a extrair apenas música, sem malabarismos circenses ou fortíssimos tonitroantes.

Apesar dos obstáculos externos (os desastrados viradores) e internos (as dificuldades próprias do gênero), Le Sage e Braley construíram uma noite memorável. Uma boa parte em função do atraente repertório, outro tanto pela interação íntima entre eles. Braley é parceiro preferencial na fórmula dois pianos da cena francesa. Já gravou com Alexandre Tharaud. E com Le Sage uma leitura impecável dos raros Seis Estudos Canônicos de Schumann para piano de pedaleira, na belíssima versão juvenil de Debussy para dois pianos de 2009.

No palco, repetiram a performance notável da gravação, o que não é pouco. A exuberante e rara sonata de Mozart a dois pianos também recebeu uma leitura arrebatadora.

Os momentos mais intensos ficaram reservados para as peças de Debussy e Poulenc. De La Mer, pode-se exaltar a performance. Mas o fato é que Debussy é um poeta da cor, do timbre, e a versão a dois pianos elimina o DNA de sua escrita: a sutileza no trato com a diversificada paleta sonora da orquestra. Em sua correspondência, Debussy diz que gostaria de ter sido marinheiro e confessa: “Amo o mar; escutei-o com o respeito apaixonado que ele merece”. O mar, tão próximo na versão sinfônica, vira pálida lembrança nos pianos. Não por acaso, os movimentos chamam-se Da alvorada ao meio-dia, Jogo das ondas e Diálogo do vento e do mar.

Já a sonata para dois pianos de Francis Poulenc é de um modernismo elegante: corteja os ouvidos mais avançados, no tema dissonante que abre, fecha e perpassa a obra. Mas tempera as ousadias com uma escrita na maior parte das vezes redonda e de rara felicidade. “Meu cânone é o instinto”, disse o compositor, revelando o princípio fundamental que o impulsionava. “Faço o que me agrada.” Aí reside o maior encanto dessa obra idiomática para o gênero. Encanto multiplicado na ótima performance do duo francês.

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