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Dois novos Cds trazem gravações ao vivo do pianista Nelson Freire

Ótima qualidade técnica ressalta algumas das qualidades pelas quais pianista é mais aplaudido: a fluência e o rubato especialíssimo em Chopin

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO

24 de dezembro de 2015 | 15h25

Aos poucos, as brechas na discografia de Nelson Freire vão sendo preenchidas com registros históricos e/ou ao vivo. Curioso – e perverso – este movimento de resgate que só se inicia depois que o músico já foi mundialmente incensado. Só se presta atenção aos que já venceram; os que estão no caminho têm de lutar com imensa determinação durante décadas. Em todo caso, ótimo para nós, brasileiros, porque só assim temos acesso à integralidade da arte deste notável pianista, um dos grandes de sua geração, ao lado de Martha Argerich, Radu Lupu, Pollini, Schiff.

Nos anos 1980, quando ainda gravava pouco, Nelson dizia que não se interessava pelos registros em estúdio. Preferia o palco. Palavras sinceras. Ele brilhava mais intensamente em situação de risco. Dois CDs recém-lançados pelo selo Sanctus, de Brasília, comprovam sua forma exuberante, aos 40 anos, em recitais de 1984 – o primeiro em 25 de março em Toronto, no Canadá; o segundo em Miami, em 13 de dezembro. Quatro peças repetem-se: Evocación e Navarra, de Albéniz; Poissons d’Or, de Debussy, e A Lenda do Caboclo, de Villa-Lobos.

A ótima qualidade técnica ressalta algumas das qualidades pelas quais Nelson é mais aplaudido: a fluência e o rubato especialíssimo em Chopin (em Miami, ele compartilha conosco sua intimidade com duas mazurcas, o Impromptu no.2, op. 36 e o Scherzo no. 2, op.31); a leveza etérea em Debussy (Reflets dans l’Eau e Poissons d’Or) e Rachmaninov (Prelúdio no. 12, op.32); a malemolência e o virtuosismo em Villa (a primeira na Lenda do Caboclo, e nas três bonecas da Prole do Bebê; a técnica superlativa no Polichinelo).

Os destaques ficam com uma interpretação incendiária da monumental Fantasia op. 17 de Robert Schumann – grito de angústia lancinante e antevisão de felicidade (porque o compositor ficou 15 meses sem ver sua amada Clara, proibição imposta pelo pai dela).

É um impressionante vaivém entre seus alter-egos Florestan e Eusebius. Três movimentos que ele chamou Ruínas, Troféus e Palmas. Um turbilhão emocional que encontra em Nelson o intérprete ideal. Perfeita também a leitura da quarta sonata do russo Scriabin, manifesto teosófico de 7 minutos feito música, que começa com um Andante de tinturas metafísicas para assumir-se vertiginoso num prestissimo volando.

Em Miami, Nelson toca a sonata K. 331, célebre pelo seu rondo alla turca final; em Toronto, a sonata seguinte, K. 332, uma das mais equilibradas entre as 20 compostas por Mozart. Ambas pertencem ao pacote parisiense de 1778, com três sonatas. Comece pela K. 332. Ouça o Allegro assai final sozinho. Depois de se espantar com a dupla Mozart-Nelson, aí retorne ao nutrido Allegro inicial e ao singelo porém poético Adagio. Aí o Allegro assai ficará ainda mais brilhante. Só depois divirta-se com o rondó. Cada CD custa R$ 35. Mais informações no site www.sanctusrecordings.com

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