Wilton Jr/Estadão
Wilton Jr/Estadão

‘Dois Arlindos’ une pai e filho e duas gerações de sambistas cariocas

Gravado pouco antes de Arlindo Cruz sofrer um AVC, disco era uma velha vontade do músico

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2017 | 06h00

Uma das músicas que Arlindo Cruz fez com o parceiro Prateado ganhou outro sentido para o filho Arlindinho. Ainda internado na Clínica São José, no Rio, desde 17 de março, um dos sambista mais ativos e produtivos da música brasileira sofreu um acidente vascular cerebral quando se preparava para vir a São Paulo e subir a um palco ao lado do rapaz. Arlindinho diz que hoje, Volta, o samba em que o narrador suplica pelo retorno da mulher que ama, é o que ele sente pelo pai. “Volta que o meu peito está doendo, a saudade está dizendo que eu não sei viver assim / Então volta, vem trazer felicidade, traz de volta a metade que você roubou de mim.”

Pai e filho já haviam gravado um disco inteiro quando Arlindo sofreu o AVC. Dois Arlindos, Gravadora Universal (R$ 24,90), era uma velha vontade do pai. São 15 músicas, a maioria inéditas, com o primeiro samba que compuseram juntos, Bom Aprendiz, menções a refrões vitoriosos, como É D’Oxum e Dor de Amor, e outros partidos de destaque certo, como Deus Abençoe, Pra Que Insistir, Mais Só do Que Sozinho e a última, Pais e Filhos: “Se o futuro que eu fiz é você / Como foi, só eu sei, me perdoe se errei”, narra a composição de Piau e Arnaud Rodrigues.

“Ele queria muito registrar esse momento”, conta Arlindinho. “Estávamos fazendo muitos shows, colados mesmo, e ele sempre falando em gravar.” Ele diz que ficou apenas duas semanas sem shows depois do incidente com o pai, e que voltar ao palco foi doloroso. “Fiz um show em Cuiabá para quatro mil pessoas. Nem sei como consegui chegar ao fim.”

Arlindo Cruz, aos 58 anos, segue em tentativas de recuperação do AVC hemorrágico na área de semi-intensiva do hospital, em uma luta com respostas lentas. Seu estado de saúde é considerado grave, mas estável. Arlindinho conta que ele está consciente, seguindo movimentos com os olhos, apesar de não falar nem poder deixar o leito. “Ele ouve tudo e chora.” Sentir que o pai pode ouvir é um alento para Arlindinho. Visitas como o bandolinista Hamilton de Holanda chegam com o instrumento. “Eu mesmo toco para ele.”

A história de um dos sambistas mais gravados de todos os tempos tem números impressionantes. São 789 músicas gravadas até hoje, com um altíssimo índice de hits. Não se pode medir o número de inéditas, mas sabe-se que elas passam de 500. “Só comigo, são 300.

Mas tem algumas com Sombrinha, outras com Prateado, outras com Marquinho PQD”, diz o filho. Não há roda de samba no Rio ou em São Paulo que não evoque suas músicas. Meu Lugar, O Show Tem Que Continuar, Canto de Rainha, Camarão Que Dorme a Onda Leva, Só Pra Contrariar, É Sempre Assim, Batuques do Meu Lugar e muitas outras feitas ou não em parceria. Além de vitaminar a própria prosperidade do mundo do samba, Arlindo abasteceu carreiras de grandes dimensões, como as de Zeca Pagodinho (que gravou Bagaço de Laranja, Casal Sem Vergonha, Dor de Amor, Quando Eu te vi Chorando), Beth Carvalho (Jiló com Pimenta, Partido-Alto Mora no Meu Coração, A Sete Chaves) e o príncipe do samba, Reinaldo (Pra Ser Minha Musa e Onde Está).

Seu nascedouro é o mesmo de Zeca Pagodinho e de toda uma geração que vem dos anos 80 para cá, reafirmando-se nos pilares de um formato de samba de morro, cronista de um modo de vida do subúrbio do Rio chamado partido-alto. A quadra do Cacique de Ramos, uma espécie de braço partideiro da escola Império Serrano e até hoje um dos mais respeitados recantos do samba “sem contaminação” do Rio, foi o ambiente de surgimento do Fundo de Quintal, no início dos anos 80. Arlindo não estava na primeira formação, que tinha Almir Guineto, Bira Presidente, Jorge Aragão, Neoci, Sereno, Sombrinha e Ubirany. Arlindo entrou no lugar de Jorge Aragão, que saiu para trabalhos solos. Walter Sete Cordas saiu para a entrada de Cleber Augusto.

“Eu cresci vendo esse pessoal todo compor com meu pai, tenho orgulho em dizer que aprendi o que sei com esses caras”, conta Arlindinho, 25 anos. Se o pai teve tempo de ser pai durante sua infância, com a demanda dos boêmios do samba? “Um paizão. Sempre foi ver os campeonatos de futebol da escola. Imagina, ele sempre fez a música do fim de ano da turma.”

Apesar de ter criado Meu Lugar, um hino ao bairro de Madureira, Arlindo nunca morou ali. “Ele morou em Piedade porque Madureira sempre foi um bairro mais caro.” E entrega um detalhe que pode criar intrigas no meio. Aos 7 anos, Arlindo, um imperiano de elite, começou a vida no samba como integrante da vizinha Portela. “É, rapaz, meu pai já foi portelense.”

O acidente vascular cerebral de Arlindo, segundo o filho, o pegou em um momento de consciência alimentar. Obeso, ele vinha se cuidando. “Estava fazendo dieta e, apesar de um problema no joelho, tinha voltado a caminhar.” O filho, mesmo com disco novo, sabe que vai empunhar o repertório do pai por um bom tempo até que ele se recupere. E responde com uma frase algo que mais aprendeu com Arlindo Cruz. “Ele sempre nos dizia que o show tem que continuar.”

Uma conexão imediata

O samba erguido pelo movimento de Cacique de Ramos nos anos 80 veio com um formato tão bem desenhado que virou jogo ganho, para o bem e para o mal. O partido-alto recriado ali por Ubirany, Bira Presidente, Almir Guineto, Jorge Aragão e Zeca Pagodinho é de uma resistência inoxidável. Os anos se passaram, os subgêneros chegaram, o pagode industrial fez fortunas nos anos 90, mas foi o partido que mostrou uma força de vida própria e paralela. Nenhum outro samba tem mais força do que ele.

Dentre os reis desse tabuleiro, Arlindo Cruz é o maior deles, tanto que seu filho, Arlindinho, não precisa se preocupar em descolar sua imagem da do pai tão cedo. O que seria um problema de outros filhos de artistas parece assumido aqui como uma honra. Se Arlindinho abrir mão de buscar a tal identidade particular e se dedicar a cantar apenas a obra do pai terá uma longa carreira garantida.

Disco 2 Arlindos é uma prova do potencial de composição desse homem de 56 anos, retirado de cena no momento para cuidar de um AVC. Craque partideiro, sua música tem a comunicação imediata das rodas. 

É esse o approach de temas como Bom Aprendiz, primeira composição de pai e filho, e A Volta, um arranjo cheio, feito para a “orquestra” rítmica da qual Arlindo sempre gostou e um refrão impossível de não ser preenchido por um novo significado: “Eu vou dar a volta por cima / A dor muitas vezes ensina”. 

 

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