Jill Furmanovksy/Divulgação
Jill Furmanovksy/Divulgação

Documentário sobre Oasis, que será exibido em São Paulo, evita criar heróis e vilões

"Liam me disse: ‘Isso é melhor do que a terapia que eu nunca fiz!'", contou o diretor Mat Whitecross

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

07 Dezembro 2016 | 06h00

Cinco por cento da população da Inglaterra tentou comprar ingressos para a apresentação do Oasis em Knebworth, vilarejo 38 km ao norte de Londres. Em 1996, um a cada 20 ingleses buscou uma forma de assistir a uma das duas maiores apresentações da história do britpop – e das maiores do mundo, sem dúvida. Em 10 e 11 de agosto daquele ano, nenhuma banda era maior do que a trupe liderada por Liam e Noel Gallagher. Entenda: 2 milhões e meio de pessoas tentaram comprar os 250 mil ingressos divididos em dois dias de shows. 

O Oasis atingiu seu auge. Dois anos e meio depois de Noel ingressar na banda do irmão cinco anos mais novo, os desbocados Gallaghers estavam no topo do mundo. E, no auge, termina Oasis: Supersonic, o novo documentário a respeito da banda que foi chamada para a briga pelo Blur, de Damon Albarn, e saiu vitoriosa. 

Exibido com exclusividade no Brasil na SIM São Paulo, a Semana Internacional de Música que tem início nesta quarta-feira, 7, e incluirá ainda painéis, workshops, showcases e apresentações ao vivo, o filme sobre a banda mais proeminente da resposta britânica ao movimento do grunge foi erguido depois de uma malsucedida tentativa de se criar um filme sobre Joe Strummer, do The Clash. 

O diretor inglês Mat Whitecross, cuja família materna é da Argentina, havia sido chamado pelo produtor Simon Halfon para criar um longa de ficção sobre o vocalista e guitarrista morto quatro anos antes, em 2002. Whitecross tinha outro projeto engatilhado e não aceitou o convite do produtor Simon Halfon. No ano passado, Whitecross recebeu uma nova ligação do produtor. “Você gosta de Oasis?”, perguntou Halfon do outro lado da linha. “Gosto”, respondeu. 

Halfon era próximo de Noel Gallagher, que tinha interesse em ver a trajetória do Oasis novamente nas telas de cinema. “Quando marquei um encontro com Noel, ele me perguntou que tipo de filme eu queria fazer. Na época, ainda fazia outro documentário, não tinha pensado muito sobre isso. Lembrei das comemorações de 20 anos de (What’s the Story) Morning Glory? e do show histórico do Oasis em Knebworth, em 1996. Sugeri que fizéssemos algo para mostrar como, em tão pouco tempo, o Oasis atingiu aquele status”, conta o diretor. “Se tentássemos contar a história até (quando a banda chegou ao fim), seria um filme ruim. Seria muito difícil reunir tanta história em duas horas e meia de filme.” 

Havia a preocupação de que talvez um dos irmãos não aceitasse participar ou se envolver com o projeto. “Se Noel aceitasse, Liam iria negar. Ou o inverso”, relembra o diretor. “Como Noel já estava a bordo, precisei conversar com o Liam. E ele tem uma fama de louco, mas, frente a frente, é um cara muito gentil”, observa. 

Na primeira sessão de entrevistas – e cada irmão gravou 20 horas de depoimento –, Liam se sentou diante de Whitecross e perguntou, daquele jeito Liam de ser: “E aí, serei o vilão ou o herói dessa história?”. O diretor respondeu que, para ele, os melhores documentários são aqueles que funcionam como um Teste de Rorschach, no qual o avaliado é colocado diante de várias imagens de manchas de tinta simétrica e dizer o que enxerga ali. “Cada um vê aquilo que entender”, explica o diretor. “Algumas pessoas vão dizer: ‘Pobre Liam, ter que lidar com aquele irmão mais velho e controlador’. Outras, dirão: ‘Nossa, o Noel sofreu em ter um irmão mais novo tão louco como o Liam’.” 

“O que eu acho”, continua Whitecross, “é que não existe vilões na vida real. É claro, há exceções. No caso de Liam e Noel, acho que ambos estiveram certos. Liam com toda a sua impetuosidade do rock and roll e o Noel com a sua forma de fazer tudo funcionar.” 

O que Oasis: Supersonic é primoroso ao mostrar é como duas metades tão distintas poderiam funcionar tão bem juntas. Mesmo que a proximidade gerasse explosões. 

Os dois Gallaghers se detestam na tela quando estão juntos, em imagens de arquivo sobre os bastidores daquela ascensão. Não se respeitam, tiram sarro um do outro como se ainda fossem adolescentes birrentos. Ambos na casa dos 40 anos (Liam tem 44 e Noel, 49), enquanto relembram o começo da banda, eles mostram uma compreensão maior daquela fase que passou. Em nenhum momento os irmãos se encontraram durante as sessões de depoimento. Whitecross, ao final de tudo, acha que dessa forma foi melhor. “Juntos, eles nunca revelaram muito”, diz. “Sozinho, Liam me disse: ‘Isso é melhor do que a terapia que eu nunca fiz!’” 

OASIS: SUPERSONIC

SIM São Paulo. Centro Cultural São Paulo.

Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4002. Sáb. (10), 15h e 17h. Grátis (retirar ingressos 1 h antes)

Convenção de música ocupa a cidade até domingo, 11

Em sua 4ª edição, a Semana Internacional de Música de São Paulo, também conhecida como SIM São Paulo, promete agitar a cidade entre os dias 7, esta quarta-feira, e 11 de dezembro, domingo, com uma programação dedicada à discussão da música contemporânea, como negócio, como arte, como ambos. 

Para interessados em ingressar no mercado fonográfico, há workshops, palestras, showcases. Para o público, haverá shows espalhados pela cidade a Mostra Audiovisual, que terá a exibição de Oasis: Supersonic, One More Time With Feeling, sobre Nick Cave, e Xingu Cariri Caruaru Carioca.

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