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Documentário sobre o rapper Sabotage será lançado em São Paulo

'O Maestro do Canão' terá exibições gratuitas; Rappin' Hood escreve sobre o amigo: 'Maurinho se tornou um mito da cultura de hip-hop'

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 03h00

Sabotage não tinha medo de sorrir. A cara feia poderia surgir, às vezes, mas não era a marca registrada. Morto a tiros aos 30 anos, em 24 de janeiro de 2003, o rapper paulistano deixou apenas um disco gravado (O Rap É Compromisso), e uma sensação de que poderia ter sido muito mais. O documentário Sabotage: O Maestro do Canão, que terá pré-estreia nos dias 23 e 24 deste mês, sexta e sábado, quando o assassinato completa 12 anos, exerce a função de trazer um novo olhar para a vida curta e explosiva daquele que foi uma das personalidades mais visionárias da cultura hip-hop no País, justamente por não temer as câmeras.

O ano era 2002. Ivan 13P deixou a favela do Canão, na zona sul de São Paulo, embasbacado pela história contada por Mauro Mateus dos Santos, apelidado de Sabotage pelo irmão, por atrapalhar as brincadeiras quando criança. O diretor entrevistara o rapper para o documentário Favela no Ar, uma coprodução ao lado de duas empresas europeias na qual outras figuras do rap nacional, como KLJay, RZO, Xis, Afro-X, assim como Sabotage, falavam sobre suas experiências e os reflexos do ambiente no qual viviam em suas músicas. O documentário, atualmente, é considerado como responsável por marcar a disseminação da cultura hip-hop.

A trajetória de Maurinho, como Sabotage era chamado pelas vielas do Canhão, era viva demais para ser resumida em um documentário ao lado de outros rappers. Ivan queria mais. "Tínhamos muito material sobre o Sabota, mas não conseguiríamos colocar tudo no Favela no Ar. Poderíamos fazer algo só com ele", relembra o diretor, dono da 13 Produções. Cinco meses após a entrevista, ao deixar a mulher, Dalva, no ponto de ônibus para ir trabalhar, Sabotage é abordado. Quatro tiros arrancam a vida de suas veias. Sobrou a história a ser contada. "O material que tínhamos merecia ser contado."

Ao longo dos anos, Ivan se encontrou com outros nomes do hip-hop, amigos e companheiros de vida de Sabotage para realizar O Maestro do Canão. A cada dois meses, em média, levava a câmera para fazer alguma outra entrevista. Em 2010, já estava com um corte do longa-metragem, pronto para ser colocado em circuito. "Mas era um filme só de rapper falando sobre ele. Senti a necessidade de ter algo mais abrangente", conta o diretor.

Foi quando Wanderson Sabotinha, filho de Sabotage, colocou Ivan em contato com Denis Feijão, diretor-presidente da Elixir Entretenimento. Denis havia produzido Marighella e estava finalizando Raul - O Início, o Fim e o Meio, dirigido por Walter Carvalho. "Conheci o Sabotinha por intermédio do ator Daniel de Oliveira e pensei em fazer um filme sobre o Sabotage. Ele me falou do Ivan e deu uma liga, cara", diz Denis.

O filme é uma coprodução entre a 13 Produções e a Elixir Entretenimento. Depois da pré-estreia no Auditório Ibirapuera, o longa-metragem será exibido em todos os cinemas da rede Itaú Cultural, com entrada gratuita.

Foi iniciado um novo trabalho para aumentar a amplitude do documentário - uma marca das próprias rimas de Sabotage. Chegaram as entrevistas de figuras fora da cena do rap, como Hector Babenco, diretor de Carandiru (2003), filme no qual Sabotage não apenas atuou como trabalhou como um consultor sobre o local, que ele frequentou durante o período no qual um dos seus irmãos esteve preso por lá. "Assistir ao Babenco falando sobre o Sabotage, cheio de carinho, é incrível", diz Ivan 13P. "O Sabota era um cara agregador, fazia as pessoas se aglutinarem e escutarem, com respeito, o que ele tinha a dizer", conclui o diretor.

O próprio Sabotage esteve envolvido com o crime e tráfico de drogas, mas a passagem recebe pouco tratamento em O Maestro do Canão, cujo intuito, como conta o diretor Ivan 13P, é homenagear o rapper que ele foi, com rima rápida, afiada e com uma capacidade rítmica invejável. "Muita gente me pergunta sobre o (período no) tráfico e sobre a morte dele, mas essa não era a minha intenção. Isso é assunto policial", explica. "Queríamos registrar essa parte artística e cultural." O produtor Denis Feijão completa: "Quem conhece o Sabotage, vai celebrar o cara. Vai resgatar a memória e o legado dele. Quem não conhece, vai se familiarizar mais com ele. O seu legado vai ser passado adiante".

ARTIGO:  

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Rappin’ Hood

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Em 1986, o rap brasileiro ainda era um embrião só escutado em bailes de periferia realizados por equipes como Chic Show, Black Mad, Zimbabwe, Circuit Power, entre outras. Foi esta a atmosfera na qual conheci Sabotage. Todas as quartas-feiras, no antigo Clube da Cidade, na Barra Funda, era organizado o Clube do Rap, e Maurinho, como Sabotage era chamado, estava sempre por lá. Era fim dos anos 1980 e meu amigo Sabota sumiu na neblina. Algum tempo depois, fiquei sabendo de um sujeito que ganhava os concursos de rap na região de Interlagos. Fui até um baile de lá e pude conferir que, sim, era mesmo ele: Sabotage.

Nossa amizade era pura e verdadeira. Cristalina, mesmo. Sempre que nos encontrávamos era uma festa. Naquele dia, ele sorriu e disse: "Um dia vão nos reconhecer, Hood!". O ano era 1992, 1993, e, mais uma vez, Sabotage desapareceu.

Lembro-me de 1998 como se fosse hoje. O Posse Mente Zulu havia lançado seu primeiro disco e a música Sou Negrão começou a tocar nas rádios, na MTV. Fazíamos muitos shows. Era um sábado. Teríamos três apresentações naquela noite. O primeiro era na Casa de Cultura Chico Science, ali no Ipiranga, zona sul, a nossa quebrada. Ao chegarmos lá, o Maurinho apareceu e perguntou: "Você lembra de mim?". Respondi: "Sabotage, poxa, negrão, você some".

Nesse dia, ele estava acompanhado da esposa dele, Dalva, deixou o número de um pager e falou que iria entregar uma fita demo. Subiu no palco comigo e Johnny MC. Dali, fomos até o ClubHouse, em Santo André, um baile da equipe Kaskatas. Lembro-me de comentar com o DJ Marco, ainda na van: "Saudade desse louco do Sabotage. Ele tem umas rimas loucas, mas sempre desaparece".

Naquela época, era muito próximo do RZO, dos seus integrantes como Helião, Sandrão e todo o pessoal de Pirituba. Eles eram essenciais nas festinhas de rap realizadas em São Paulo cantando o sucesso deles, O Trem. Sabotage foi ao show deles e se apresentou a Sandrão. Disse que era meu amigo e mostrou suas rimas. Sandro me telefonou no dia seguinte: "Conheci um parceiro seu, um tal de Sabotage. Ele rima muito. Um monstro!". Eu ri, já conhecia o estilo dele. Sandrão falou com a gravadora Cosa Nostra e ficou resolvido: "Maurinho vai gravar um CD!".

O restante da história, todos conhecem. O disco O Rap é Compromisso é um clássico do rap nacional e faz parte da discoteca básica para todos os rappers.

Um álbum marcado pelo envolvimento dos melhores em prol do escolhido mano Sabotagem. Ele, um cara que fazia rap muito bem, com o coração, e que merecia uma chance.

Racionais MC’s, RZO, Código Fatal, Black Alien, SNJ,Trilha Sonora do Gueto, Potencial 3, Rappin Hood, Negra Li, DBS, Chorão (Charlie Brown Jr), e o pessoal do Instituto. Todos esses nomes estavam a serviço do maestro do canão. Respeito é para quem tem. E Sabotage tinha muito respeito. Depois disso, Maurinho se tornou um mito da cultura de hip-hop brasileira. Viva, Sabotage!

RAPPIN’ HOOD É RAPPER, UM DOS MAIORES NOMES DO HIP-HOP NACIONAL E AMIGO DE SABOTAGE

ENTREVISTA:

WANDERSON SABOTINHA, 22 anos, filho de Sabotage

Gostou do filme?

Gostei. Eu estava esperando por uma coisa assim para me deixar orgulhoso, sabe? Encontrei ali mais coisas do que esperava. Tem muita história para contar. Várias imagens inéditas. Parecia que ele estava vivo. Meus olhos se encheram de lágrimas.

O documentário conseguiu mostrar uma parte do seu pai que você não conhecia?

Tem muita coisa. E consegui ver que públicos diferentes gostam muito dele. O carinho era sempre muito grande. E a humildade dele, que planejava criar uma ONG, uma gravadora. Ele já imaginava isso tudo. Infelizmente, ele foi nessa. Mas estou aqui para continuar o que ele planejou.

Consegue enxergar a influência do Sabotage nos mais novos?

Na época do meu pai, era um rap mais de gueto, sabe? Era ele, Xis, RZO, Racionais. A raiz daquilo chegou agora, com Projota, Emicida, Rashid, Polo, os novatos. Eles cresceram ouvindo a música do meu pai. É como futebol. Antes, havia Ronaldo Fenômeno e Romário. Agora tem Neymar. Temos que respeitar.

Como ele era como pai?

Ele fazia o tipo de pai chato, daqueles que reclamam para a gente ir tomar banho. Quando não estava viajando, ele ficava muito conosco. Se estava fora, ligava para saber da gente. Quando compunha, vez ou outra, ele me acordava para me mostrar. Isso sem falar nos conselhos, que eram muitos. Ele me levava e buscava na escola. Ali, não era o Sabotage. Era o meu pai. 

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