João Luiz Sampaio/Estadão
João Luiz Sampaio/Estadão

Documentário sobre a ‘Nona Sinfonia’ de Beethoven terá passagens filmadas em Heliópolis

O cineasta alemão Claus Wieschmann conheceu a comunidade de Heliópolis e o trabalho dos músicos do Instituto Bacarelli, que serão personagens do filme ao lado de artistas do mundo inteiro

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2018 | 06h00

Um documentário produzido na Alemanha vai investigar o fascínio que a Sinfonia nº 9 de Beethoven provoca ainda hoje nas plateias – e vai passar pelo Brasil. O cineasta Claus Wieschmann esteve esta semana em São Paulo, conhecendo a comunidade de Heliópolis e o trabalho dos músicos do Instituto Baccarelli, que serão personagens do filme ao lado de artistas de diferentes partes do mundo.

“À medida que nos aproximamos dos 250 anos de nascimento de Beethoven, que serão completados em 2020, uma das perguntas que nos colocamos foi entender o motivo da sua música permanecer tão viva na mente dos ouvintes. E a Sinfonia nº 9 talvez seja a peça que melhor ilustra essa realidade”, diz Wieschmann.

O aniversário de Beethoven já está mobilizando o mercado musical mundo afora, com previsões de lançamentos de discos, biografias e concertos. A própria Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo vai participar, no final do ano que vem, de uma série de concertos em todo o mundo, na qual Marin Alsop vai reger a Nona Sinfonia.

O foco na peça, estreada em 1824, é natural. Primeiro, pela mensagem de unidade e fraternidade apresentada em seu coro final, que fez dela presença em eventos como a inauguração da sede da ONU e também hino da União Europeia. O musicólogo Harvey Sachs, por sua vez, lembra que a peça nasceu quando o compositor já estava completamente surdo – o que reforçava a ideia da obra de arte como símbolo do mundo interior de seu criador, um conceito que ajudaria a dar forma ao romantismo e pautaria até hoje nossa percepção do que é um artista. Já o filósofo anarquista Mikhail Bakunin dizia que, se toda música já composta se perdesse em uma revolução, “deveríamos nos comprometer a recuperar esta sinfonia, ainda que sob risco de vida”.

Wieschmann chegou ao Brasil no fim de semana e, no domingo, assistiu ao concerto da Sinfônica Heliópolis no Teatro Municipal, quando o grupo interpretou a Sinfonia nº 4 de Tchaikovski. Nos últimos dias, esteve em Heliópolis, conhecendo a comunidade, escolhendo locações e tendo contato com os músicos do projeto, que vão apresentar a Sinfonia nº 9 de Beethoven com Isaac Karabtchevsky no início de dezembro também no Municipal, ao lado do Coral Lírico Municipal.

“No final do mês, voltaremos para acompanhar todo o processo de ensaios e filmar também a apresentação. Nosso foco, no entanto, estará nos músicos e suas histórias.”

Transformação e igualdade

No início dos anos 2000, Wieschmann ouviu falar pela primeira vez da Orquestra Sinfônica Kimbanguiste, baseada em Kinshasa, capital do Congo. O grupo era formado por cerca de 200 artistas amadores, que ensinavam a música de Händel, Vivaldi, Mozart e Beethoven uns para os outros e se apresentavam com instrumentos tradicionais e outros construídos a partir de materiais locais.

“O que me fascinou naquele momento era entender qual o significado que a música chamada clássica tinha para aquelas pessoas. Por que motivo eles optaram por estudar e tocar esse repertório?”, conta o cineasta, que, ao lado de Martin Baer, filmou o documentário Kinshasa Symphony, estreado em 2010 e premiado em festivais de todo o mundo, como o de Nova York, nos Estados Unidos, e o de Vancouver, no Canadá.

O filme acompanhava o grupo durante as preparações de diferentes repertórios, entre eles a Sinfonia nº 9 de Beethoven. E, oito anos depois, pareceu natural a Wieschmann tratar da peça, ainda mais com a proximidade das comemorações pelos 250 anos.

O projeto é uma parceria que envolve diferentes instituições mundo afora. Na Alemanha, participam redes como a Deutsche Welle; no Japão, a NHK; na França, o canal Arte; na Inglaterra, há conversas com a BBC. O cineasta diz que gostaria de voltar à África, mas essa possibilidade ainda não está confirmada. “Em certo sentido, é essa a ideia da Sinfonia nº 9, unir as pessoas”, ele explica.

Algumas das etapas do documentário já foram filmadas. Wieschmann esteve no meio do ano em Salzburgo, na Áustria, onde acompanhou concertos do maestro grego Teodor Currentziz, que vem se notabilizando por gravações originais e inovadoras do grande repertório com a orquestra Musica Aeterna. Na Inglaterra, trabalhou com o compositor e DJ Gabriel Prokofiev, neto do compositor Sergei Prokofiev, que criou há alguns anos o conceito de “rave erudita” e fez para o projeto um remix da sinfonia. 

Na Espanha, o documentário acompanhou o trabalho da Mahler Chamber Orchestra, grupo criado pelo maestro Claudio Abbado, com crianças e músicos surdos. A ideia do projeto foi do compositor Paul Whittaker, ele próprio deficiente auditivo, que será responsável também por escrever a trilha sonora do filme. “Há uma conexão direta com a realidade pessoal do próprio Beethoven que gostaríamos obviamente de contemplar. O fato de que ele escreveu esta e tantas outras obras grandiosas sem poder ouvir não pode ser tratado de maneira banal”, explica Wieschmann.

O filme também terá passagens no Japão. “Em todo o país, anualmente, gigantescos grupos de músicos e coros com milhares de pessoas se reúnem em grandes estádios para interpretar a Nona de Beethoven, algo que precisava estar no documentário.” A equipe de produção também estuda a possibilidade de filmar no Irã.

Mensagem. “A Ode à Alegria com que se encerra a sinfonia carrega uma mensagem clara de liberdade, igualdade, um sentido de humanidade que é ainda hoje muito forte. Mas ela é também, acredito, sinônimo de diversidade. E é esse o nosso norte à medida que trabalhamos nas filmagens, tentando chegar a uma resposta final a respeito de por que uma sinfonia como essa mexe tanto com as pessoas”, explica Wieschmann.

Foi por isso, ele diz, que contemplando possibilidades de projetos a serem visitados no continente americano, optou pelo Brasil e pelo trabalho do Instituto Baccarelli. “O estimulante para mim é entender, em nível bastante individual, qual o sentido disso tudo. Em outras palavras, quero estar ao lado de alguns músicos, acompanhá-los, entender suas histórias, suas trajetórias de vida, para entender por que resolveram se dedicar à música, e a esta música especificamente. Acreditamos que a música provoca mudanças, mas queremos entender como isso se dá. Eu particularmente acho que assistir a um concerto na televisão é algo muito chato. Mas entender quem são essas pessoas que fazem a música acontecer e ganhar sentido, isso é fascinante.”

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