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Documentário 'Sem Dentes' celebra o rock nacional dos anos 90

Jornalista e documentarista Ricardo Alexandre reconta a história do selo Banguela Records

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

04 Julho 2015 | 06h00

Era um garoto vivendo seu sonho, uma versão particular de Quase Famosos (filme de Cameron Crowne capaz de transformar nove entre dez jovens em aspirantes a jornalistas de música ao acompanhar a turnê de uma banda então candidata a maior do mundo). Tinha 19 anos e presenciava uma reunião do selo Banguela Records, hoje considerado definidor da música alternativa como a conhecemos. Integrantes do Titãs, banda que comandava aquela empreitada musical ao lado do produtor Carlos Eduardo Miranda, também presente ali, consideravam se contratariam ou não o Planet Hemp, então uma banda em ascensão e pronta para estourar. Decidiram deixar a oportunidade passar porque receavam que o grupo seria preso, eventualmente, pela apologia à droga – e estavam certos.

“O que eu estava fazendo ali, especificamente, não faço ideia”, confessa, entre risos, Ricardo Alexandre, o garoto de 20 anos atrás. “A sede do Banguela era um ponto de encontro.” Duas décadas se passaram desde aquela reunião – e Alexandre, afinal, seguiu a ideia de se tornar jornalista. Já o Banguela Records não durou muito. Foi uma louca aventura de pouco mais de um ano de duração, responsável por lançar bandas como Raimundos e Mundo Livre S/A e exaltar o indie do País como até então não se havia visto no âmbito nacional. A Alexandre, coube a vontade de voltar no tempo e recontar essa história. Daí surgiu o documentário Sem Dentes: Banguela Records e a Turma de 94, coproduzido e corroteirizado pelo também jornalista Alexandre Petillo, que estreou no festival In-Edit, atualmente em sua sétima edição. O filme será exibido neste domingo, 5, às 17h30, na Cinemateca Brasileira, seguido por um papo com o diretor, e na sexta-feira, 10, às 20h, no Centro Cultural São Paulo.

A brevidade do Banguela Records, selo da Warner Music, consegue condensar ainda mais o que foram os anos 1990 em termos do rock nacional. O gênero, surgido na década anterior, com Paralamas do Sucesso, Titãs, Legião Urbana e suas respectivas turmas, encontrava-se combalido – havia gente que chamava o Titãs de dinossauros, veja só. Havia uma lacuna. Ainda existiam jovens animados a pegar guitarras e a fazer barulho, mas não havia deslumbramento com a música estrangeira tão emulada pelos anos 1980. Era o momento da regionalidade. Ao mesmo tempo, tinha uma cena underground fervilhando e preparada. Fanzines se espalhavam por todos os lados, assim como fitas cassete de bandas iniciantes brotavam dos cinco cantos do País.

Carlos Eduardo Miranda, um jovem de Porto Alegre que havia fomentado a cena roqueira de lá, encontrava-se responsável por escrever sobre bandas independentes na extinta revista Bizz, marco do jornalismo musical brasileiro, e descobriu novidades vindas de Brasília (como Raimundos) e em Pernambuco (todo o movimento conhecido como manguebeat). “Eu tive um sonho. Nele, eu tinha uma missão a fazer. E era isso, construir o Banguela”, conta Miranda. “Parece maluquice, né?” 

Embora tenha lançado discos de Mundo Livre S/A, Little Quail and The Mad Birds, Kleiderman (banda formada por Sérgio Britto e Branco Mello), Maskavo Roots e Graforréia Xilarmônica, o selo ficou marcado pelo álbum homônimo do Raimundos, de 1994. Descoberta das boas de Miranda, o grupo trazia o frescor jovem que faltava. Eles iam do xote ao metal, em petardos de dois minutos.

A saída da banda do Banguela, que encontrou uma brecha no contrato e foi para a major Warner Music, foi também a sentença de morte do selo. Aos olhos da multinacional que o bancava, ele havia atingido o seu objetivo: encontrado uma máquina de fazer dinheiro. Titãs e Miranda seguiram para a Excelente Discos, da Polygram.

O sonho da cena noventista havia acabado com o Banguela, contudo. O sucesso mainstream efervesceu o mercado de forma predatória. Selos queriam novos Raimundos e, quando surgiu o Mamonas Assassinas, ainda mais brejeiro que o grupo de Brasília, a “indústria achatou”, como diz Miranda. “Eles criaram uma expectativa de mídia totalmente nova”, relembra. “Até mesmo o Raimundos foi renegado por isso. Foi a diluição da nossa geração.”

Sem Dentes chega ao fim quase apocalíptico. Dá um salto de Mamonas a Los Hermanos, surgidos já no fim da década, com o hit Anna Júlia, do primeiro disco. Mas Alexandre não quer deixar a bola cair para a nostalgia melancólica e promove um encontro de gerações. Vinte e tantos anos depois da música A Tempestade, do Maskavo Roots, ser lançada, ela é interpretada por artistas da nova geração, como Suricato, enquanto sobem os créditos do documentário. “A indústria, como a conhecemos em 1990, acabou. Com seus vícios e virtudes”, diz o diretor. “Nossa mensagem é que se hoje existe uma situação adversa, havia também em 1992 ou 1993. Só é preciso sonhar.”

Assista ao trailer: 

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