Documentário resgata obra de uma grande pianista

O primeiro contato de Norma Bengellcom a arte da pianista Guiomar Novaes ocorreu ainda na infância,na verdade no mesmo momento em que a atriz e diretora passou aprestar atenção na atividade do pai e do avô. "Venho de umafamília muito musical e, desde cedo, estudei piano; tambémaprendi canto", lembra ela.Seu pai e seu avô eram construtores de piano, o últimoajudou, até mesmo, na confecção do órgão da Igreja daCandelária. "Lembro, também, que meu pai era o afinador dopiano de Magdalena Tagliaferro. Cresci, de certa forma, nestemeio, envolvida com a música clássica."A vida encaminhou Norma para outros campos artísticos,mas a paixão daqueles primeiros anos de contato com a música ecom Guiomar Novaes não ficaram esquecidos. "Sou uma admiradoralouca de seu trabalho." Em sua opinião, há até uma ligação,mesmo que inconsciente, mágica com a pianista. "Em um de meusprimeiros trabalhos no teatro, Vestido de Noiva, a minhapersonagem tinha como tema a Marcha Fúnebre de Chopin,interpretada por ela."A idéia de fazer um trabalho sobre a pianista surgiu em1993, mas acabou ultrapassada por outros projetos. Anos maistarde, porém: "Acordei e decidi que estava na hora de fazer odocumentário, que era um escândalo grande demais Guiomar não tero reconhecimento que merece dentro do próprio país." Ela, então, levantou a estrutura de produção, que tem baixo orçamento econta apenas com o trabalho de "quatro ou cinco pessoas": umcameraman, um diretor de arte, um produtor, um assistente deprodução além, obviamente, da própria Norma.Martelo - Toda a fase de pré-produção esteve embaladapela interpretação do Concerto n.º 4 de Beethoven - gravaçãoda qual Norma é grande admiradora. "Ouço muito", resume ela.Se, neste diálogo que pretende ser o documentário, a música é ofoco central, em um encontro irreal com a pianista, que mistério, que dúvidas, Norma gostaria de esclarecer com Guiomar?"Perguntaria, sem dúvida alguma, qual espírito baixava nela nomomento em que se sentava ao piano e começava a tocar." Só?"Veja, ninguém toca daquele jeito só por tocar, tanta genteestuda, estuda, e não chega a isso."Entre essa gente toda, aparece - por que não? - aprópria Norma. "Eu me lembro que, quando era criança, passavahoras estudando e uma vizinha dizia sempre: "Pára de martelar opiano." Se você reparar com cuidado, o piano, de fato, é formadopor uma série de martelinhos que batem fazendo soar as notas. Sóque, no caso de Guiomar, não soava como um martelo, ela nãomartelava!"Norma arrisca até a resposta que a pianista daria aessas perguntas. "Acho que ela iria dizer que tudo aquilo erafruto de uma força divina." A ligação de Guiomar com a religião, aliás, será um dos temas do documentário, mas dentro,reconhecidamente, de uma interpretação pessoal de Norma. "Afamília dela fala de uma pessoa extremamente católica, que seatrasava para chegar aos teatros pois precisava ir à igreja",comenta ela. "Mas, na minha interpretação, mais do que tudo, aigreja deveria ser para ela uma espécie de templo, um local noqual ela podia viajar na interpretação, na sua arte." ParaNorma, assim como Michelangelo encontrou na Capela Sistina umespaço adequado para colocar em prática seu talento, ou comoBeethoven procurava igrejas para se apresentar, Guiomar ia àigreja para "ter paz e poder criar". "Ao menos, foi assim queesses relatos da família fizeram sentido para mim."Desprezo - Norma não esconde que a possibilidade deapresentar ao público o talento de Guiomar Novaes foi um dosgrandes incentivos ao seu trabalho, fruto de uma indignação como fato de que a pianista foi reconhecida no mundo todo e hojeapenas dá nome a ruas no Brasil. "Que adianta ter uma ruachamada Guiomar Novaes se as pessoas que passam por ela não têmidéia de quem ela foi."De fato, o reconhecimento internacional a Guiomar nãofoi pequeno. Ao lado de comentários de professores ecompositores como o francês Claude Debussy, grande parte daimprensa especializada das cidades por onde ela passou, daadmiração diante do impacto de suas apresentações até acuidadosa observação de sua técnica, não poupou elogios a seutrabalho. "A mais bela natureza de pianista com que se possasonhar", escreveu o crítico da Le Monde Musical de Paris,em 1915. Um ano mais tarde, o New York Evening Post colocavaem suas páginas o seguinte comentário: "Seus prodígios fazemdessa moça uma das sete maravilhas do mundo da música." Enfim,a lista de elogios é imensa."A falta de conhecimento com relação a Guiomar Novaestalvez seja fruto de uma outra ausência, da inexistência de umamemória cultural do País perante a cultura massificante emvigor. E daí que ela já morreu? Sua arte é eterna, não nasce nemmorre." O documentário será lançado em DVD e negociado com atelevisão, em busca de um público bastante amplo. "Se sobrar umpouco de dinheiro, esperamos exibi-lo também nos cinemas."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.