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Documentário 'Refavela 40’ conta a história do clássico disco de Gilberto Gil

Filme dirigido por Mini Kerti estreia nesta terça, 19, e tem fio narrativo conduzido por Gil e seu filho Bem

Alberto Bombig, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2019 | 06h00

“O Brasil não vive no vácuo.” A frase, aparentemente simples por sua obviedade, ganha peso (ou leveza) de sabedoria oriental quando você a escuta diretamente da boca de Gilberto Gil. Em 1977, o cantor, compositor e multi-instrumentista baiano foi até o coração da África, em Lagos, na Nigéria, participar de um festival cultural. Ao retornar, lançou, naquele mesmo ano, um disco seminal: Refavela, que atualizou e conectou a música e o movimento negro do País à vanguarda das artes e da luta por igualdade racial. 

Quarenta e dois anos depois, a HBO estreia nesta terça, 19, às 22h, o documentário Refavela 40, sobre o álbum e suas várias dimensões na carreira de seu autor e na vida cultural brasileira. “Tem um sentido de retrospectiva muito amplo, não apenas sobre o disco, mas sobre todo o contexto”, diz Gil. Naquela segunda metade dos anos 1970, o Brasil atravessava a distensão da ditadura militar (1964-1985), a democracia ainda era uma promessa e as grandes cidades do País cresciam desordenadamente, empurrando os migrantes, os pobres e os negros para as periferias, para o topo e as encostas dos morros.

Em Lagos, no Festival Mundial da Arte e da Cultura Negras, Gil se deparou com questões até hoje prementes na vida da população negra. A luta por uma identidade sem a perda total da identidade. A mistura sem massacrar a essência.

De volta ao Brasil, fez um disco com elementos do afrobeat de Fela Kuti, do reggae de Bob Marley e da black music americana, sem deixar fora os brasileiríssimos samba, xote e forró. Um manifesto da cultura negra.

Questionado pelo Estado, Gil fez uma análise sobre o atual momento da luta dos negros brasileiros neste 2019 e os 130 anos da Proclamação da República: “É evidente que o Brasil não vive no vácuo. A sociedade brasileira se mexeu como um todo. A abolição da escravidão, ainda que parcial, sem o adicional de uma segunda abolição, proporcionou uma emergência das questões negras. Houve progressos, ainda que faltem tantas coisas para a República quanto para os negros”.

Refavela é irmão mais novo de Refazenda (1975), outro álbum antológico de Gil. O documentário da HBO, dirigido por Mini Kerti, antes de tudo celebra esse momento luminoso da carreira de Gil e o toma como ponto de partida, com avanços e retrocessos temporais, para anotar sua influência sobre as novas gerações e no conjunto da obra do cantor e compositor baiano. “Ele é muito claro em relação a tudo o que significava aquele período para mim e para o movimento negro. Uma via de expressão, a consolidação de um gênero que mais tarde viria a ser o axé, por exemplo”, diz Gil, referindo-se à Axé Music baiana.

Em linhas gerais, o documentário está apoiado em três eixos: 1) imagens histórias; 2) cenas da reunião, no apartamento de Gil, 40 anos depois, com depoimentos de parte da banda que o acompanhou na Nigéria – estão lá Rubão Sabino, baixista, Robertinho Silva, baterista, e o percursionista Djalma Corrêa; 3) reinterpretação das canções no show realizado na Concha Acústica de Salvador, em 2017, que integrou turnê comemorativa dos 40 anos do álbum e teve nomes da nova geração da MPB, como Céu, Moreno Veloso e Maíra Freitas. 

O fio narrativo é conduzido pelo próprio Gil e, principalmente, pelo filho, o também músico Bem Gil, muito à vontade no papel de entrevistador, auxiliado pelo antropólogo Hermano Vianna. “Tem um caráter de transmissão de bastão para a nova geração”, diz Gil. Segundo ele, o filho foi “perspicaz” ao perceber o “caráter seminal do disco”. Gil se emocionou ao assistir ao documentário, especialmente nas passagens sobre a prisão dele em Florianópolis por porte de maconha, em 1976, nas cenas antigas de palco e no depoimento de Mãe Menininha do Gantois a Jorge Amado. “Fiquei muito tocado.” 

Confira o faixa a faixa de Refavela

  • Refavela. A inspiração veio dos alojamentos onde Gil e sua banda se hospedaram durante a passagem pela Nigéria. No show ‘Refavela 40’ (e no documentário), o próprio Gil interpretava a canção.
  •  Ilê Ayê. Aberta com o inconfundível violão de Gil, a música de Paulinho Camafeu, com quem ele conversa no documentário, exalta o mais antigo bloco de Salvador. 
  •  Aqui e Agora. Composta na viagem à Nigéria, tornou-se uma das canções mais célebres de Gil. Moreno Veloso deu voz a ela no show.
  •  Norte da Saudade. Gil definiu a canção composta com Perinho Santana e Moacir Albuquerque como ‘xote-reggae’. 
  •  Babá Alapalá. Feita para ‘Tenda dos Milagres’, de Nelson Pereira dos Santos.
  •  Sandra. Homenagem às mulheres que apoiaram Gil em sua passagem por um sanatório a mando da Justiça, após ser preso por porte de maconha em Florianópolis. 
  •  Samba do Avião. Releitura em ritmo de funk do clássico de Tom Jobim.
  •  Era Nova. Música feita para Roberto Carlos, que não a gravou.
  •  Balafon. Canção inspirada no instrumento tradicional da África mostrado no documentário.
  •  Patuscada de Gandhi. Tema do grupo Filhos de Gandhi, em que Gil desfila.

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