Documentário foge dos clichês para mostrar o real alcance da obra de Jorge Benjor

'Obá Obá Obá' já conta com mais de seis horas de gravação e tem lançamento previsto para o final do ano

Julio Maria, Rio - O Estado de S. Paulo

15 de julho de 2014 | 02h00

As forças de Jorge tomaram a Base Aérea do Recife no dia 30 de junho para fazer justiça. Charles Anjo 45, uma das raras músicas politizadas do cantor, que um dia perturbou o sono do regime militar, estava na partitura de 35 homens fardados, prontos para o sinal da batuta do sargento Ivan do Espírito Santo. Eles tocaram com gosto e empenho a canção lançada por Jorge em 1969, que fazia homenagem a um marinheiro rebelde em plena ditadura, perseguido pela mesma caserna que o acolhe agora. Em um arranjo de nove minutos, Charles caminha pela marcha, pelo frevo e pelo samba. O comando das Forças Armadas não vai perseguir ninguém, até porque também foi consultado e disse ok.

As músicas de Jorge Benjor têm andado por cantos que ele mesmo não faz ideia. Nos últimos dias, enquanto o mundo olhava para a bola, elas estiveram por mais de dez cidades do Brasil, levadas por dois cineastas franceses, Benjamin Rassat e Vincent Moon, e interpretadas por gente que as tem nas veias.

Obá Obá Obá, nome do documentário, já conta com mais de seis horas de gravação, registradas nas viagens da dupla, feitas em dias de Copa do Mundo para explorar a relação da música de Jorge com o futebol. Já participaram grupos como Graveola e o Lixo Polifônico, de Belo Horizonte; Os Tucumanos, de Manaus; e Tibério e Lucas dos Prazeres, do Recife. De São Paulo, entraram a sambista Fabiana Cozza, o grupo de samba rock Clube do Balanço e os irmãos Max de Castro e Wilson Simoninha. O formato de lançamento, previsto para o final do ano, ainda não está definido. “Podemos recortar para fazer em vários capítulos de uma série para TV”, diz Benjamin Rassat. O Canal Brasil, conta, é um parceiro em potencial para a exibição.

Falsos improvisos. O Estado assistiu a trechos do projeto na última quinta-feira, em uma exibição para convidados no Bar Semente, na Lapa do Rio de Janeiro. Há momentos comoventes, que mostram um alcance da obra de Jorge fora dos lugares comuns. “Para mim, ele é o maior tesouro brasileiro ainda a ser descoberto”, diz Rassat.

Não há grandes cenários nas captações. Muitas são feitas como se tivessem sido improvisadas, gravadas de surpresa. “Mas não, trabalhamos muito para isso, preparamos muito cada cena. Algumas por cinco meses.” Ao todo, o projeto está sendo trabalhado há seis anos.

Um exemplo é a aparição de Fabiana Cozza, sentada no sofá de uma pequena sala, ao lado dos músicos árabes Sami, alaudista, e William Bordokan, percussionista. Eles começam tocando um improviso em cantos e solos de escalas menores harmônicas de alaúde, produzindo solos com intervalos árabes, até que Fabiana passa a evocar aos poucos Rosa, Menina Rosa. Sem fazer força, Jorge chega com as porções muçulmanas da África, trazidas pela mãe nascida na Etiópia.

“Para que as coisas saíssem como saíram nesta música, oferecemos um jantar árabe aos músicos e só gravamos depois”, conta Rassat. O rodopio mântrico leva a canção de Jorge ao limite do irresistível na voz de Fabiana, quando os convidados passam a acompanhar com palmas e uma mulher se levanta para dançar.

Os diálogos da obra de Jorge com o choro, poucos citados na história, são outro investimento dos cineastas. Um grande grupo de chorões, com 200 integrantes, toma uma praça no Rio para fazer uma versão também de conceito randômico de Descalço no Parque. Por trás dos arranjos estão dois nomes de respeito: Luciana Rabello e Maurício Carrilho. “Jorge tem muita influência de Baden Powell”, diz o cineasta. Os filhos de Baden, os também violonistas Marcel e Phillipe, fizeram cada um uma versão para Bebete Vambora.

O próprio Jorge não viu o material gravado. Os franceses, que haviam tentado contato pelas vias oficiais, só o encontraram um dia, por acaso, durante um voo. Jorge estava de pijama no avião. “Eu expliquei a ele o que estávamos fazendo e ele demonstrou interesse”, conta Rassat. Depois de um tempo, os diretores conseguiram marcar a gravação das cenas para hoje, em um “local secreto.” “Não queremos forçar nada, vamos ver o que acontece”, diz Rassat.

Imagens foram feitas também em estádios, de torcedores em êxtase ou angustiados, que deverão ilustrar algumas músicas de Jorge. Ao menos para os franceses, o Mineirazo rendeu boas cenas. E a música Chove Chuva nunca soou tão simbólica.

'Samba Saravah', de Pierre Barouh, foi a maior inspiração

A inspiração dos franceses que vieram ao Brasil para filmar a obra de Benjor é o cantor, ator e também cineasta francês Pierre Barouh. Foi este homem, hoje com 80 anos, quem ajudou a levar a música brasileira para a Europa na segunda metade da década de 60. Além de ter feito versões em francês para músicas brasileiras como A Noite do Meu Bem e Noite dos Mascarados (que o autor Chico Buarque considerou melhor do que a original) e de ter gravado com Elis Regina em 1968, quando ela apareceu para o mundo em duas temporadas no Olympia, de Paris, Barouh registrou em vídeo momentos históricos. Em 1969, ele foi ao Rio de Janeiro para fazer, em apenas dois dias, o documentário Samba Saravah, que se tornou uma peça com conteúdo raro da música brasileira.

“Descobri o Brasil vendo Sivuca tocar em uma casa de Lisboa”, conta. Na quinta, ele era um dos convidados de honra dos cineastas para a exibição de Obá Obá Obá, no Bar Semente.

Com pouco dinheiro e quase nenhuma estrutura, Barouh fez entrevistas com nomes que deixariam pouco registro para a posteridade, como João da Baiana e Pixinguinha. Baden Powell o conduziu pelo Rio, tocando e explicando tudo o que perguntava. Barouh conseguiu reunir em uma mesa a céu aberto dois artistas que pouco tinham a ver naquele momento, e que seguiriam em caminhos diferentes: Paulinho da Viola e Maria Bethânia. 

“Minha ideia era esta mesmo, colocar lado a lado pessoas que tinham propostas diferentes.” Paulinho não parece entender a ideia de Barouh e fala com certa irritação em um momento da conversa. “Temos proposições diferentes, você entende isso?” E explica que, a ele, interessam as escolas de samba do povo.

Só com o violão de Paulinho, a voz de Bethânia e as palmas das poucas pessoas que estavam por perto, um dos momentos sublimes da música do final dos anos 60 foi imortalizado por Barouh. O conteúdo todo já foi parar na internet. / J.MARIA

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