Do encontro de dois violões nasce João Gilberto Gil

Ao lançar ‘Gilbertos Samba’ em São Paulo, Gil mostra como se aproximar e se distanciar do mestre da bossa

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

21 de julho de 2014 | 02h00

João Gilberto estava ali e não estava. Sua presença era sentida nas harmonias do jazz e no puxar das cordas de samba com as quais criou um universo nos anos 50. Se tivesse parado aí, Gilberto Gil já teria um Rio São Francisco para mergulhar, apenas transpondo a voz e o violão de João para si, como se o palco do novo Teatro Net São Paulo fosse o sofá de sua casa. Mas não. Gil se aproxima primeiro e pede a bênção. Depois, se distancia e deixa evidente o que o faz Gilberto Gil e não João Gilberto. E, quando se passam três ou quatro músicas, os dois desaparecem.

João Gilberto Gil surgiu no fim de semana quando o cantor baiano passou por São Paulo com a turnê do novo disco, Gilbertos Samba, que gravou para homenagear o pai da bossa. Gil estreou um teatro médio em São Paulo, para 799 pessoas. Ainda que fosse visível que a casa não está pronta – faltava acabamento ao chão e às bordas do palco –, o espaço era apropriado para acolher a proposta acústica do artista. Gil parecia perto de todos e, em um palco menor, ainda mais afetuoso com o baterista Domenico, com o filho guitarrista e percussionista Bem Gil, e com o acordeonista Mestrinho. Mostrou canções do disco e outras que poderia ter gravado. E voltou a ser Gil, revisitando o próprio repertório com pequenas revisões nos arranjos.

O novo Gil que João dá forma tem a voz atuando nas regiões mais graves, às vezes em seu limite. Gil tem tido problemas vocais com seus 72 anos. Há notas agudas que um dia gravou em seus discos e que não atinge mais. Assim, abaixou as tonalidades de quase todas as músicas. Ao fazer João, reencontrou o conforto. Foi justamente na baixa emissão de volume e nos graves, aprendidos nos discos de Chet Baker nos anos 50, que João inventou seu canto. Ou o seu ‘não canto’. Quando abre o show, com Aos Pés da Santa Cruz, já fica claro que é por ali que Gil também vai andar.

João Gilberto Gil não está só. Seu grupo, o mesmo que atuou nas gravações do disco, tem interferência decisiva na atitude das canções. A sustentação está apenas no violão de Gil, deixando que os outros criem clima, com fios de ruídos ou pequenas linhas em contraponto com a melodia. Ainda que bem mais discreto, há algo da Banda Cê, o grupo com o qual Caetano Veloso se reinventou em seus últimos discos, nos conceitos da ‘limpeza áspera’ de Gil cantando, por exemplo, Desafinado. Quando tudo parece estar calmo, na percussão minimalista à base de lixas de parede raspadas umas às outras, Gil faz uma dinâmica crescente com o efeito de um pedal de guitarra. Algo que João não imaginaria nem em sonho.

Não é um Gil experimental, mas um Gil livre, que não visita João para copiá-lo, mas para experimentá-lo. Seu violão, mesmo na bossa, continua sendo mais percussivo do que harmônico, mais de quintal do que de teatro, ainda que venha com a grande quantidade de acordes estudados para a turnê. Gil ama criar pontes, as passagens ou introduções, sobretudo nos baixos, entre primeiras e segundas partes de canções, chamadas pelos músicos de convenções. O Pato e Tim Tim por Tim Tim deixam esse passeio evidente.

Apesar de os recursos reinventarem João com discrição o tempo todo, nada soa estranho e Gil faz uma apresentação próxima, pop, fácil e empolgante. Do que não está no disco, mostra Rosa Morena, de Dorival, e uma série de músicas do próprio repertório. Já em festa, canta com a plateia Aquele Abraço. Para o bis, deixa uma música que os internautas escolheram pelas redes sociais: Desde Que o Samba É Samba.

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