Djavan revisita Alagoas em novo álbum

Depois de três anos sem lançar disco de músicas novas, Djavan volta ao que mais gosta de fazer: compor. Está lançando, nesta semana, o CD Milagreiro (Sony Music). Feito em casa, literalmente. O compositor alagoano montou em casa um estúdio - porque achou que assim teria mais tempo, mais calma, mais concentração para burilar o trabalho. "Com as gravadoras, é tudo muito urgente, muito corrido, muito para ontem", diz. Mas talvez essa pressa já o tenha contaminado. Gravando em casa, com quatro músicos - dois deles são seus filhos -, fez o disco mais rápido da carreira. Levou dois meses e meio em estúdio. "Normalmente, levo quatro", lembra.Por outro lado, se tudo foi rápido, nada foi apressado. O trabalho vinha sendo urdido, nesse tempo de aparente inatividade como compositor. E foi tramado em família. A guitarra ficou a cargo do filho Max Viana, que também assina a assistência de produção. A bateria é de outro filho, João Viana. A direção de arte (dividida com Gigi Barreto) e o belíssimo design gráfico de capa e encarte do álbum são da mulher do músico, Rafaella Brunini.Cada um na sua especialidade - e muito bons, em suas especialidades. Com alguns detalhes que um trabalho assim organizado se pode dar ao luxo de ter. Por exemplo: as letras das músicas, no encarte, são legíveis. Isso mesmo, legíveis. Se alguém se espanta por esse tópico ser salientado, é sinal de que não tem olhado capas de CD, ultimamente. A facilidade tipográfica computadorizada alucinou os designers. "As letras têm de ser decodificadas", diz Djavan. Não está exagerando. É tudo cifrado, atravessado, escrito de cabeça para baixo, de trás para a frente, em cores berrantes. "Ninguém consegue ler, é um quebra-cabeças danado", continua o compositor. "Fiz questão de que no meu disco, o encarte fosse legível." Quarteto - Os filhos músicos já tocam profissionalmente há alguns anos. Max faz parte há tempos da banda do pai. "João passou três anos tocando com Cássia Eller, o que foi uma excelente experiência, ele aprendeu muito", conta Djavan. "E ele somou muito com o manauara Serginho Carvalho, contabaixista", avalia. "O Serginho é bom de groove e, do jeito que eles fizeram a coisa, baterista e contrabaixista funcionam em rigorosa sintonia, quase como se fossem uma pessoa só", entende. "Para completar o time, chegou o Renato Fonseca, tecladista de Pernambuco, bom programador de efeitos eletrônicos." Uma garotada que não chegou ainda aos 30 anos. Mas não se imagine que Djavan resolveu fazer música "jovem" (seja lá o que queira dizer a expressão, ela tem bom uso mercadológico: música "jovem", ou assim rotulada, é mais vendável), ou som para consumo internacional. De fato, ele até andou fazendo isso. Em Milagreiro, seguiu direção oposta. "Eu voltei para minha terra, voltei para Alagoas; esse disco me leva em direção às raízes", avalia o compositor. "Nunca tive raízes muito fincadas, talvez por ter viajado para o Rio e ficado seis anos sem voltar a Maceió", lembra. "No fundo, tenho enorme inveja dos baianos, dos cearenses, dos pernambucanos, que estão sempre em contato com a terra de origem, falam dela, valem-se dela na obra", confessa. Claro que, ao longo da obra, Alagoas aparece explicitamente ou de forma implícita (na construção das frases musicais, na organização das frases). Mas não como aqueles baianos, cearenses, pernambucanos a quem Djvan se refere.Antes tarde do que nunca: ele fez sua canção do exílio. É a canção que abre o disco. Chama-se Farinha. É um baião marcado, um pé-de-serra com ligeiro acento pop. Diz: "A farinha tá no sangue do nordestino/ Eu já sei desde menino o que ela pode dar/ Se não tem da quebradinha/ Vou na vizinha pegar" - para terminar assim: "Você não sabe o que é farinha boa/ Farinha é a que a mãe me manda lá de Alagoas." "É meu caminho de volta, que está presente na maneira como tratei as músicas do disco", Djavan explica. "Ando com necessidade crescente de reestabelecer relação com a minha terra - eu ´tô voltando, eu ´tô voltando", enfatiza. "Até quero procurar um cantinho lá, para ter pousada, para ter um porto algum tempo a cada ano", adianta.A faixa-título tem clima espanhol, um flamenco visto do Brasil, com piano e violão de cordas de náilon. Conta com participação de Cássia Eller, usando a voz rouca no registro agudo, que explora menos do que deveria (soa muito, muito bonito). "Mesmo na ´espanhola´ Milagreiro tem Alagoas" - Djavan está de fato mergulhado na questão da terra natal -, "porque toda a música nordestina é impregnada da cultura moura" - verdade. O CD tem 11 faixas, novas. Por que o compositor levou tanto tempo sem apresentar novidades, se gosta mais de compor do que de fazer qualquer outra coisa, como sempre afirma? "Bem, em 1998 eu fiz o Bicho Solto, um álbum de inéditas; depois, a gravadora quis que eu gravasse um disco ao vivo. Eu relutei. Não queria. Até porque, um disco ao vivo pressupõe a revisita a sucessos - eu não poderia gravar coisas novas", lembra. "A Sony insistiu, no fim cedi; de qualquer forma, enfiei duas canções novas no repertório, Acelerou e Amor Puro. Foi uma forma de não ficar com a sensação de que não havia trabalhado." Modinha - O encarte do disco, mais uma vez, tem referências alagoanas. Transcreve-se, numa das páginas finais, o verso "Alagoas tem jóias tão caras que meus olhos não cansam de olhar". Foram escritas por Lourival Passos, estão na música Maceió. "Eu cantava essa canção já aos 4 anos; é uma espécie de hino da minha cidade", lembra Djavan. "Curioso é que o Lourival, que já morreu, era paraibano." Outros versos enriquecem o encarte. São os do poema Modinha, de Adélia Prado. "Nos anos 80, a Adélia fez um poema para mim e o entregou a mim, pessoalmente", conta o compositor. "Quando estávamos montando o disco, achei que seria bom ter alguma coisa da Adélia. Mandei algumas das músicas que já estavam gravadas para que ela soubesse qual seria a atmosfera do CD, depois telefonei, perguntei se ela escreveria alguma coisa, ou se eu poderia usar aqueles versos que ela fez para mim nos anos 80, ou se poderia usar alguma outra coisa", prossegue. "Ela sugeriu que eu transcrevesse Modinha, um poema que eu já conhecia, do qual sempre gostei." Modinha diz assim: "Quando eu fico aguda de saudade eu viro só ouvido/ Encosto ele no ar, na terra, no canto das paredes" - alguma dúvida de que Adélia tenha captado o estado de espírito do compositor, saudoso da praia da infância? Mas Djavan tem um outro motivo para essa volta para dentro - volta para o umbigo, como ele diz. Ele começou a gravar Milagreiro no dia 16 de setembro. No dia 18, nasceu sua filha, Sofia. "Nunca fui pai como estou sendo agora", diz o compositor. "Há 20 e tantos anos, eu tinha menos tempo para meus filhos, menos disponibilidade. Tinha muito o que fazer; era afoito, como são os jovens. Agora, encontro mais tempo para mim - e para ela."

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