Djavan mostra a rotina sobre o palco em DVD

Com quase 40 anos de carreira, cantor mostra um pouco de seu universo em 'Rua dos Amores Ao Vivo'

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

02 de abril de 2014 | 22h22

Com quase 40 anos de carreira, Djavan, o músico, já é um velho conhecido dos fãs pelos discos e shows que leva Brasil afora. Longe dos olhos de seu público, ele volta a ser Djavan Caetano Viana, que comanda uma equipe, gosta de trocar ideias com os músicos de sua banda, é exigente na hora do trabalho, mas se entrega ao riso nos momentos mais descontraídos.

Um pouco dos dois universos do cantor e compositor alagoano de 65 anos está em seu novo DVD, Rua dos Amores Ao Vivo, que o capta no palco, durante show de sua recente turnê, e o acompanha nos bastidores, no documentário Um Olhar Íntimo. A gravação ao vivo também rendeu CD, com sucessos como Oceano e Flor de Lis. Ao Estado, ele fala do novo projeto, além de internet, violência no Rio – onde vive desde que saiu de Maceió, aos 23 anos –, e Procure Saber, grupo de pessoas ligadas à música (do qual ele faz parte), que, em 2013, se posicionou contrário à publicação de biografias não autorizadas.

Além do registro do show de sua atual turnê, o DVD ‘Rua dos Amores Ao Vivo’ traz documentário dos bastidores. Como surgiu a ideia de incluí-lo no projeto?

As pessoas gostam de saber como as coisas são feitas, de ver os artistas e todos que contribuem com ele na intimidade. Pensamos em atender a essa curiosidade, para poder não só dar uma ‘upgradeada’ no DVD, como também deixar registrada nossa convivência musical e pessoal.

Como foi a escolha das cenas?

Tinha muita coisa, a gente foi selecionando – que fique tosco aqui e acolá está legal, mas não pode ficar bobo. Nesse processo, eu estava junto. Estou junto em todos os momentos (risos). Delego sempre, mas tenho de ver se é isso mesmo, porque sou eu quem vou carregar aquilo para o resto da vida.

Você quis mostrar sua relação com os músicos da banda?

A participação deles é efetiva, não só tocando, mas dando opinião, falando como se sentem dentro do trabalho, comigo. São músicos com os quais trabalhei 15 anos atrás e os trouxe de volta à banda. Quando os convidei, não tinha certeza do que ia acontecer. Afinal de contas, todos nós mudamos em um tempo tão longo assim. Poderia ser que musicalmente ficasse bom, mas, no trato pessoal, não. E isso não funciona comigo, porque, quando estou em turnê, acabo convivendo mais com a equipe do que com a minha família. Então, é preciso que haja uma relação de muito respeito e muita amizade. Essa coisa de barraco em turnê comigo não rola.

No DVD, você fala como é montar o repertório dos shows. Qual a dificuldade de fazer isso tendo tantas composições de sucesso?

Tenho um conjunto de 25 a 30 clássicos que o Brasil inteiro conhece, mas isso não é um facilitador. Faço uma coisa que dá muito trabalho: unir músicas clássicas com novas. Pego também todas as músicas clássicas que vou usar no show e as rearranjo – e rearranjá-las é mais difícil do que fazer arranjo novo para uma música nova, porque é uma canção conhecida, que não pode ser descaracterizada.

Há alguma ação prevista para disponibilizar esse novo conteúdo em seus canais oficiais, como site e redes sociais?

Sim, acho que isso ocorrerá naturalmente. Temos mais de 3 milhões de seguidores no Facebook. A ideia é nutrir sempre as pessoas de informação.

Você pessoalmente usa essas ferramentas?

Tenho uma equipe, e minha inserção nisso é na medida em que preciso me comunicar com as pessoas, como gravar mensagem no Dia do Fã, e dar a informação que elas buscam. Eu até gostaria de ter uma participação mais efetiva, mas não consigo. Falta de tempo mesmo. Mas vejo tudo. Não sou internauta como a maioria das pessoas é hoje em dia, vivendo conectadas o tempo todo. Tenho uma vida muito dinâmica, preciso dar vazão às minhas coisas. Tenho filho pequeno, vou à escola, à reunião de pais. Quando estou no Rio, me dedico completamente a essa vida familiar. Continuo dando importância à vida como se nela não houvesse internet.

O projeto de lei Marco Civil da Internet, que garante a liberdade de expressão e a privacidade dos usuários da internet no Brasil – e defendido publicamente por Gilberto Gil – foi aprovado pela Câmara e encaminhado para votação no Senado. Acha importante tomar medidas do gênero?

Lógico, as pessoas precisam ter a capacidade de usá-la com desenvoltura. É claro que tem de haver regras, porque toda a liberdade demanda responsabilidade. Criar filho hoje em dia com a internet é um trabalho... Tenho uma filha de 12 anos, e uma criança nessa idade pensa que sabe demais e não sabe absolutamente nada. Ocorre uma coisa péssima, com a qual fico devastado, que é invadir a privacidade dela. A gente faz isso com um constrangimento absurdo, mas não tem outra saída. Tenho outro filho, de 7 anos, que mexe no computador melhor do que eu. Já tenho de estar ligado no que ele está fazendo.

Os assassinatos de Amarildo e Cláudia, moradores de morros do Rio, tiveram grande repercussão. Os acusados são policiais. Os casos levantaram questões como preconceito e a difícil relação entre comunidades de favela e polícia. Qual sua opinião?

Enquanto o Estado não conseguir gerir a vida das pessoas das comunidades de maneira que lhes deem o que elas têm direito – o acesso à educação, saúde, saneamento básico –, tudo pode acontecer. É um mundo à margem e o que o colocou nessa condição foi exatamente a carência de serviços. É preciso que haja uma intervenção do Estado no sentido de tornar acessível esses serviços que as pessoas dessas comunidades precisam, para viverem com o mínimo de dignidade.

Não deve ser, então, só uma intervenção da polícia...

Isso resolve em um momento. O interesse agora é deixar o Rio de Janeiro apto para receber a Copa do Mundo. Só que essas ações já começam de um modo que considero difícil de se concretizar a contento. Pega-se toda a marginalidade dos morros e simplesmente a afasta dali. Mas eles ficam soltos pela cidade. O caos só é transferido.  Depois que ocupou-se o (Complexo do) Alemão, era ‘nego’ assaltando no meio da estrada, um pandemônio, porque a operação é reticente: não atinge o cerne da questão.

No ano passado, as biografias não autorizadas geraram polêmica. O que você acha que rendeu o debate entre o Procure Saber e os defensores das obras não autorizadas?

Todos nós erramos, mas acho que parte da imprensa cometeu um erro que achei grave. Perdeu-se ali a oportunidade de ratificar a democracia. Em nome da liberdade de expressão, ela usou abuso de poder, espinafração pública e tentativa de desmoralização diante de uma opinião divergente da dela. A gente perdeu a oportunidade de fazer um debate com elegância, civilizado, porque uma parte da imprensa ignorou que, em uma democracia, todo indivíduo tem direito de ter sua própria opinião e, mediante à divergência, o único caminho é o debate, o diálogo.

Chegou-se a chamar o posicionamento de vocês de censura...

Claro que a própria imprensa tentou incutir nos artistas a pecha de censores, mas ela mesmo sabia que isso não tinha sentido, porque não é verdade. Tenho quase 40 anos de vida pública, os outros (do Procure Saber) têm 50. O povo conhece a gente.

Sua opinião sobre o assunto mudou?

Não mudou, porque nunca fui contra nada. Ao contrário, a biografia não autorizada é um elemento que ratifica qualquer democracia, não se pode viver com uma opinião oficial de nada. Não, a questão nunca foi essa. Ali foi uma ação, inclusive, solidária do grupo. Mas ninguém é contra a biografia não autorizada. Eu jamais fui e jamais serei.

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